segunda-feira, 4 de março de 2013

Capítulo 10 - O Menino do Pijama Listrado

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O PONTO QUE VIROU UMA MANCHA QUE VIROU UM VULTO QUE VIROU UMA
PESSOA QUE VIROU UM MENINO



A caminhada ao longo da cerca demorou muito mais do que Bruno havia imaginado inicialmente; parecia se estender por quilômetros e quilômetros. Ele andou e andou, e, quando olhou para trás, a casa em que estava morando parecia cada vez menor até sumir de vista completamente. Durante todo aquele tempo ele não viu ninguém perto da cerca; nem viu portas através das quais pudesse entrar, e começou a ficar aflito, pensando que sua exploração acabaria sendo infrutífera. Na verdade, embora a cerca continuasse a perder de vista, as cabanas e os prédios e as colunas de fumaça estavam desaparecendo na distância atrás dele, e a cerca parecia separá-lo de nada além de um grande espaço vazio.
    Depois de andar durante quase uma hora e já sentido alguma fome, ele pensou que talvez bastasse de exploração para um dia e que seria boa idéia dar meia-volta. Entretanto, bem nesse instante, um pequeno ponto apareceu na distância, e ele estreitou os olhos para tentar descobrir o que era. Bruno lembrou-se de um livro que lera certa vez, contando a história de um homem que se perdia no deserto e, porque ficava sem comer e sem beber durante muitos dias, começava a imaginar maravilhosos restaurantes e nascentes de água magníficas, mas quando tentava comer ou beber delas, as miragens desapareciam no ar, apenas punhados de areia. Bruno se perguntou se era isso que estava acontecendo com ele agora.
    Porém, enquanto pensava, seus pés o levaram, passo a passo, cada vez mais perto do ponto na distância, que nesse meio-tempo havia se tornado uma mancha, dando, dentro em pouco, todos os sinais de se transformar numa forma. E logo depois disso a forma se tornou um vulto. E então, conforme Bruno chegava ainda mais perto, ele viu que não era nem ponto nem mancha nem forma nem vulto, e sim uma pessoa.
    Na verdade era um menino.
    Bruno já havia lido muitos livros sobre exploradores, o suficiente para saber que nunca se sabia o que se poderia encontrar. Na maioria das vezes eles encontravam alguma coisa interessantes que estava lá, cuidando da própria vida, esperando para ser descoberta (como a América). Outras vezes descobriam algo que deveriam deixar em paz (como um rato morto no fundo do armário).
    O menino pertencia à primeira categoria. Ele estava lá, cuidando da própria vida, esperando para ser descoberto.
    Bruno diminuiu o ritmo quando viu o ponto que virou uma mancha que virou um vulto que virou uma pessoa que virou um menino. Embora houvesse uma cerca separando-os, ele sabia que a precaução em relação aos desconhecidos nunca era demais e era melhor abordá-los com cuidado. Então ele continuou a andar, e logo estavam um de frente para o outro.
    “Olá”, disse Bruno.
    “Olá”, disse o menino.
    O garoto era menor do que Bruno e estava sentado no chão com uma expressão de desamparo. Ele vestia o mesmo pijama listrado que todas as outras pessoas daquele lado da cerca, e um boné listrado de pano. Não tinha sapatos ou meias, e os pés estavam um pouco sujos. No braço ele trazia uma braçadeira com uma estrela desenhada.


    Quando Bruno se aproximou do menino pela primeira vez, ele estava sentado no chão de pernas cruzadas, olhando para a poeira debaixo de si. Entretanto, após um momento, ele olhou para cima e Bruno pôde ver o seu rosto. Era um rosto bastante estranho. A pele era quase cinza, mas diferente de outras tonalidades de cinza que Bruno já havia visto. Os olhos eram bem grandes, da cor de balas de caramelo; os brancos eram muito brancos, e, quando o menino olhou para Bruno, tudo o que este viu foi um par de enormes olhos tristes a encará-lo.
    Bruno teve certeza de jamais ter visto um menino tão triste e tão magro em toda a sua vida, mas decidiu que seria melhor conversar com ele.
    “Estou explorando”, disse ele.
    “Ah, é?”, disse o pequeno menino.
    “Sim. Já faz quase duas horas.”
    Não era exatamente verdade. Bruno estivera explorando fazia pouco mais de uma hora, no entanto achou que exagerar um pouquinho não seria algo tão terrível de se fazer. Não era o mesmo que mentir e fazia-o parecer mais aventureiro do que era de fato.
    “Descobriu alguma coisa?”, perguntou o menino.
    “Quase nada.”
    “Nada mesmo?”
    “Bem, descobri você”, disse Bruno após um instante.
    Ele olhou para o menino e pensou em perguntar por que ele estava tão triste, porém hesitou, achando que poderia ser falta de educação. Bruno sabia que às vezes, quando a pessoa está triste, não gosta de falar a respeito; às vezes acaba contando do que se trata por conta própria e às vezes não pára de falar nisso durante meses, mas naquela ocasião ele pensou que seria melhor esperar antes de dizer qualquer coisa. Havia descoberto algo durante sua exploração, e agora que estava finalmente conversando com uma das pessoas do outro lado da cerca pareceu ser uma boa idéia aproveitar ao máximo a oportunidade.
    Sentou-se no chão do seu lado da cerca e cruzou as pernas como o menino menor e desejou ter trazido consigo um pedaço de chocolate, ou quem sabe um bolo, pra que pudessem dividir.
    “Eu moro na casa que fica deste lado da cerca”, disse Bruno.
    “Ah, é? Eu vi a casa uma vez, a certa distância, mas não vi você.”
    “Meu quarto fica no primeiro andar”, disse Bruno. “De lá eu enxergo por cima da cerca. Meu nome é Bruno, aliás.”
    “Eu sou Shmuel”, disse o menino menor.
    Bruno contraiu o rosto, achando que havia escutado mal o que o garoto dissera. “Como é mesmo o seu nome?”, perguntou ele.
    “Shmuel”, disse o garoto, como se fosse a coisa mais natural do mundo. “Como é mesmo o seu nome?”
    “Bruno”, disse Bruno.
    “Nunca havia escutado esse nome antes”, disse Shmuel.
    “E eu nunca havia escutado o seu”, disse Bruno. “Shmuel.” Ele ficou pensativo. “Shmuel”, repetiu. “Gosto de como soa o seu nome quando eu o digo. Parece o som do vento soprando.”
    “Bruno”, disse Shmuel, acenando com a cabeça alegremente. “É, acho que gosto do seu nome também. Parece alguém esfregando os braços para se aquecer.”
    “Nunca conhecei alguém chamado Shmuel antes”, disse Bruno.
    “Há dúzias de meninos chamados Shmuel deste lado da cerca”, disse o garoto. “Provavelmente centenas. Queria ter um nome só meu.”
    “Nunca conheci ninguém chamado Bruno”, disse Bruno. “Além de mim mesmo, é claro. Acho que devo ser o único no mundo.”
    “Sorte sua”, disse Shmuel.
    “Deve ser. Quantos anos você tem?”, perguntou Bruno.
    Shmuel pensou a respeito e olhou para os dedos, que se agitavam no ar, como se ele estivesse tentando calcular. “Tenho nove anos”, disse o menino. “Eu nasci no dia 15 de abril de 1934.”
    Bruno encarou-o, surpreso. “O que você disse?”, perguntou ele.
    “Disse que nasci no dia 15 de abril de 1934.”
    Os olhos de Bruno se arregalaram e a boca fez o formato de um O. “Não posso acreditar”, disse ele.
    “Por que não?”, perguntou Shmuel.
    “Não”, disse Bruno, sacudindo a cabeça rapidamente. “Não quis dizer que não acredito em você. Eu fiquei surpreso, só isso. Porque o meu aniversário também é no dia 15 de abril. E eu também nasci em 1934. Nascemos no mesmo dia.”
    Shmuel pensou mais um pouco. “Então você também tem nove anos”, disse ele.
    “Sim. Não é estranho?”
    “Muito estranho”, disse Shmuel. “Pois pode haver dúzias de meninos chamados Shmuel deste lado da cerca, mas acho que nunca conheci ninguém que fizesse aniversário no mesmo dia que eu.”
    “Somos como gêmeos”, disse Bruno.
    “É, um pouco”, concordou Shmuel.
    Bruno sentiu-se muito feliz de repente. Na sua cabeça apareceu uma imagem de Karl e Daniel e Martin, seus três melhores amigos, e ele se lembrou de como costumavam se divertir juntos em Berlim e percebeu como estivera solitário em Haja-Vista.
    “Você tem muitos amigos?”, perguntou Bruno, inclinando a cabeça um pouco para o lado, enquanto esperava pela resposta.
    “Ah, sim”, disse Shmuel. “Bem, mais ou menos.”
    Bruno franziu o cenho. Ele esperava que Shmuel dissesse que não, o que apontaria outro traço em comum entre eles. “Amigos próximos?”, ele perguntou.
    “Bem, não são muito próximos”, disse Shmuel. “Mas deste lado da cerca há muitos de nós – meninos da nossa idade, quer dizer. No entanto, brigamos a maior parte do tempo. É por isso que venho aqui. Para ficar sozinho.”
    “É tão injusto”, disse Bruno. “Não entendo por que tenho que ficar encalhado do lado de cá da cerca, onde não há ninguém para conversar nem para brincar, e você fica com suas dúzias de amigos e provavelmente brinca durante horas e horas todo o dia Terei que conversar com eu pai a respeito disso.”
    “De onde você veio?”, perguntou Shmuel, estreitando os olhos e olhando para Bruno com curiosidade.
    “Berlim.”
    “Onde fica?”
    Bruno abriu a boca para responder, mas percebeu que não sabia ao certo a resposta. “Na Alemanha, é claro”, disse ele. “Você não é da Alemanha?”
    “Não, sou da Polônia”, disse Shmuel.
    Bruno franziu o cenho. “Então por que você fala alemão?”, perguntou ele.
    “Porque você disse olá em alemão. Então eu respondi em alemão. Sabe falar polonês?”
    “Não”, disse Bruno, rindo nervosamente. “Não conheço ninguém que saiba falar duas línguas. Que dirá alguém da nossa idade.”
    “Minha mãe é professora na escola e me ensinou alemão”, explicou Shmuel. “Ela também fala francês. E italiano. E inglês. Ela é muito inteligente. Eu ainda não falo francês nem italiano, mas ela disse que um dia me ensinará a falar inglês, porque posso precisar.”
    “Polônia”, disse Bruno, pensativo, medindo a palavra na língua. “Não é tão boa quanto a Alemanha, é?”
    Shmuel franziu o cenho. “Por que não?”, perguntou ele.
    “Bem, porque a Alemanha é o maior de todos os países”, respondeu Bruno, lembrando-se de algo que ouvira o pai comentar com o avô em certo número de ocasiões. “Somos superiores.”
    Shmuel encarou-o sem dizer nada, e Bruno sentiu um forte desejo de mudar de assunto, pois, enquanto dizia aquelas palavras, havia algo a respeito delas que não soava correto, e a última coisa que queria era que Shmuel pensasse que ele estava sendo mal-educado.
    “Afinal onde fica a Polônia?”, ele perguntou depois de alguns instantes em silêncio.
    “Bem, fica na Europa”, disse Shmuel.
    Bruno tentou se lembrar dos países a respeito dos quais herr Liszt havia falado durante a última aula de geografia. “Já ouviu falar na Dinamarca?”, ele perguntou.
    “Não”, disse Shmuel.
    “Acho que a Polônia fica na Dinamarca”, disse Bruno, cada vez mais confuso, embora estivesse tentando parecer esperto. “Porque a Dinamarca fica a muitos quilômetros de distância”, repetiu ele, para confirmar o que dizia.
    Shmuel encarou-o por um momento e abriu e fechou a boca duas vezes, como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras. “Mas aqui é a Polônia”, ele disse afinal.
    “Ah, é?”, perguntou Bruno.
    “É sim. E a Dinamarca fica bem longe, tanto da Polônia como da Alemanha.”
    Bruno franziu o cenho. Ele já ouvira falar de todos aqueles lugares, mas sempre achava difícil organizá-los dentro da cabeça. “Bem, está certo”, disse. “Mas é tudo relativo, não? A distância, quero dizer.” Ele queria mudar logo de assunto, porque começava a achar que estava completamente enganado e fez uma promessa interior de prestar mais atenção nas futuras aulas de geografia.
    “Nunca estive em Berlim”, disse Shmuel.
    “E eu acho que nunca tinha estado na Polônia antes de vir para cá”, disse Bruno, o que era verdade. “Quer dizer, se aqui for mesmo a Polônia.”
    “Tenho certeza que é”, disse Shmuel em voz baixa. “Embora não seja a melhor parte do país.”
    “Não mesmo.”
    “O lugar de onde eu venho é bem mais agradável.”
    “Certamente não é tão agradável quanto Berlim”, disse Bruno. “Em Berlim nós tínhamos uma casa enorme, com cinco andares contando o porão e o quartinho de cima com a janela. E havia lindas ruas e lojas e bancas de frutas e legumes e um grande número de cafés. Mas, se algum dia você for para lá, eu não recomendaria andar pelo centro da cidade durante as tardes de sábado, porque há muita gente e você será empurrado de poste em poste. E era muito melhor antes de as coisas mudarem.”
    “O que você quer dizer?”, perguntou Shmuel.
    “Bem, lá costumava ser um lugar bastante calmo”, explicou Bruno, que não gostava de falar sobre o quanto as coisas tinham mudado. “E eu podia ler na cama à noite. Mas agora há muito barulho, é assustador, e temos de apagar todas as luzes quando começa a escurecer.”
    “O lugar de onde eu venho é muito mais gostoso que Berlim”, disse Shmuel, que nunca estivera em Berlim. “Todos são amigáveis e tem muita gente na nossa família e a comida é muito mais gostosa.”
    “Bem, temos que concordar em discordar”, disse Bruno, que não queria brigar com seu novo amigo.
    “É verdade”, disse Shmuel.
    “Gosta de explorar?”, perguntou Bruno um instante depois.
    “Nunca explorei, na verdade”, admitiu Shmuel.
    “Quando crescer, serei um explorador”, disse Bruno, acenando rapidamente com a cabeça. “Por enquanto não posso fazer muito mais do que ler a respeito dos exploradores, mas ao menos isso significa que, quando eu for um deles, não cometerei os mesmo erros que eles cometeram.”
    Shumel franziu o cenho. “Que tipos de erros?”, ele perguntou.
    “Ah, erros incontáveis”, explicou Bruno. “O problema da exploração é que você precisa saber se aquilo que encontrou valeu a pena se encontrado. Algumas coisas estão lá, cuidando da própria vida, esperando para serem descobertas. Como a América. Outras coisas é melhor que deixemos em paz. Como um rato morto no fundo do armário.”
    “Acho que pertenço à primeira categoria”, disse Shmuel.
    “Sim”, respondeu Bruno. “Eu também acho. Posso perguntar uma coisa?”, acrescentou ele após um momento.
    “Sim”, disse Shmuel.
    Bruno pensou no que ia dizer. Queria formular bem a questão.
    “Por que há tantas pessoas do seu lado da cerca?”, perguntou ele. “E o que vocês estão fazendo aí?

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