segunda-feira, 4 de março de 2013

Capítulo 11 - O Menino do Pijama Listrado

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O FÚRIA


Alguns meses antes, logo depois de ter recebido o novo uniforme, que significava que todos deveriam chamá-lo de “comandante”, e pouco antes de Bruno ter chegado em casa e encontrado Maria arrumando suas coisas, o pai entrou em casa certa noite mostrando grande animação, o que era muito incomum no caso dele, e marchou até a sala de estar onde a mãe, Bruno e Gretel estavam sentados lendo seus livros.
    “Quinta à noite”, ele anunciou. “Se tivermos algum plano para quinta à noite, é necessário que o cancelemos.”
    “Você pode mudar seus planos se quiser”, disse a mãe, “mas eu já combinei de ir ao teatro com...”
    “O Fúria tem um assunto que quer discutir comigo”, disse o pai, a quem era permitido interromper a mãe, embora mais ninguém tivesse esse privilégio. “Acabo de receber um telefonema esta tarde. O único horário possível para ele é na quinta à noite, e ele se convidou para o jantar.”
    Os olhos da mãe se arregalaram e sua boca fez o formato de um O. Bruno olhou para ela e se perguntou se era assim que ele ficava quando era surpreendido por alguma coisa.
    “Você não pode estar falando sério”, disse a mãe, empalidecendo um pouco. “Ele vem para cá? Para a nossa casa?”
    O pai confirmou com a cabeça. “Às sete horas”, ele disse. “Então é melhor pensarmos em algo muito especial para o jantar.”
    “Oh, céus”, disse a mãe, seus olhos indo de lá para cá com rapidez, enquanto ela pensava em todas as coisas que precisavam ser feitas.
    “Quem é o Fúria?”, perguntou Bruno.
    “Você está pronunciando errado”, disse o pai, pronunciando corretamente o nome para ele.
    “O Fúria”, disse Bruno novamente, tentando acertar, mas errando outra vez.
    “Não”, disse o pai, “o... Ora, esqueça!”
    “Bem, quem é ele afinal?”, perguntou Bruno de novo.
    O pai olhou para ele estupefato. “Você sabe muito bem quem é o Fúria”, disse ele.
    “Não sei”, disse Bruno.
    “Ele manda no país, idiota”, disse Gretel, exibindo-se, conforme a tendência das irmãs. (Eram coisas como essa que a tornavam um tamanho Caso Perdido!) “Você não lê os jornais?”
    “Não chama seu irmão de idiota, por favor”, disse a mãe.
    “Posso chamá-lo de estúpido?”
    “Prefiro que não.”
    Gretel sentou-se desapontada, mas mostrou a língua para Bruno mesmo assim.
    “Ele vem sozinho?”, perguntou a mãe.
    “Esqueci de perguntar”, disse o pai. “Mas presumo que ele vá trazê-la consigo.”
    “Oh, céus”, disse a mãe outra vez, levantando-se e contando na cabeça a quantidade de coisas que precisava organizar antes de quinta-feira, que era dali a apenas dois dias. A casa precisava ser limpa de alto a baixo, as janelas lavadas, a mesa de jantar encerada e lustrada, a comida providenciada, os uniformes da governanta e do mordomo lavados e passados e a louça de cerâmica e os copos lustrados até brilharem.
    De alguma maneira, apesar de a lista parecer aumentar o tempo todo, a mãe conseguiu terminar tudo a tempo, embora comentasse muitas vezes que a noite seria um grande sucesso se certas pessoas ajudassem um pouco mais no serviço de casa.
    Uma hora antes da que o Fúria havia anunciado que iria chegar, Gretel e Bruno foram chamados ao andar de baixo, onde receberam um raro convite para ir ao escritório do pai. Gretel trajava um vestido branco e meias até os joelhos, e o cabelo estava arrumado em cachos trançados. Bruno vestia shorts marrons, uma camisa branca lisa e uma gravata marrom-escura. Usava um par de sapatos novos comprados especialmente para a ocasião, e tinha muito orgulho deles, embora fossem pequenos demais e estivessem apertando seus pés, dificultando-lhe a caminhada. Todas aquelas preparações e todo aquele vestuário pareciam um pouco exagerados, ainda mais porque Bruno e Gretel nem sequer foram convidados para o jantar; já haviam comido uma hora antes.
    “Bem, crianças”, disse o pai, sentando-se atrás da escrivaninha e olhando para o filho e para a filha e de volta para o filho enquanto ambos permaneciam diante dele. “Sabem que temos pela frente uma noite muito especial, não é?”
    Eles fizeram que sim com a cabeça.
    “E que é muito importante para a minha carreira que tudo corra bem esta noite.”
    Eles balançaram a cabeça novamente.
    “Então há algumas regras básicas que precisam ser esclarecidas antes de começarmos.” O pai acreditava muito em regras básicas. Sempre que havia uma ocasião especial ou importante na casa, mais delas eram criadas.
    “Regra número 1”, disse o pai. “Quando o Fúria chegar, vocês ficarão no corredor, em silêncio, prontos para cumprimentá-lo. Não falem com ele até que ele fale com vocês, então respondam numa voz clara, enunciando precisamente cada palavra. Entendido?”
    “Sim, pai”, resmungou Bruno.
    “É exatamente esse tipo de coisa que não queremos”, disse o pai, referindo-se ao resmungo. “Trate de abrir a boca e falar como um adulto. A última coisa de que precisamos é que algum de vocês comece a se comportar feito criança. Se o Fúria ignorá-los, não digam nada, mas olhem diretamente para a frente e demonstrem a ele o respeito e a cortesia que um líder deste porte merece.”
    “É claro, papai”, disse Gretel numa voz bastante clara.
    “E quando sua mãe e eu estivermos jantando com o Fúria, vocês tratem de ficar quietos em seus quartos, em silêncio. Nada de correr, nada de escorregar pelo corrimão” – e ele olhou deliberadamente para Bruno – “e nada de interromper. Entendido? Não quero nenhum de vocês criando confusão.”
    Bruno e Gretel concordaram com a cabeça, e o pai se levantou para indicar que a conversa tinha acabado.
    “Então as regras básicas estão estabelecidas”, ele disse.
    Quarenta e cinco minutos depois a campainha tocou, e a casa entrou em erupção de tanta ansiedade. Bruno e Gretel assumiram suas posições na lateral da escada e a mãe esperou ao lado deles, apertando as mãos uma contra a outra em sinal de nervosismo. O pai lançou-lhes um breve olhar e acenou, satisfeito com o que estava vendo, e então abriu a porta.
    Havia duas pessoas do lado de fora: um homem pequeno e uma mulher mais alta.
    O pai cumprimentou-os e os fez entrar, enquanto Maria, a cabeça inclinada ainda mais baixo do que de costume, tomava-lhes os casacos, e as apresentações eram feitas. Primeiro falaram com a mãe, dando a Bruno a oportunidade de observar os convidados e decidir sozinho se eram dignos ou não dignos de tanto alarde.
    O Fúria era bem mais baixo que o pai, e não tão forte quanto ele, supôs o menino. Seu cabelo era escuro, cortado bastante curto, e ele tinha um pequeno bigode – tão minúsculo que Bruno se perguntou por que ele não o cortava, ou se não teria se esquecido de uma parte quando fazia a barba. A mulher ao seu lado, entretanto, era simplesmente a mais bela moça que vira em toda a sua vida. Seu cabelo era loiro e os lábios muito vermelhos, e enquanto a mãe conversava com o Fúria ela se voltou para Bruno e sorriu, fazendo-o corar.
    “E estes são meus filhos, Fúria”, disse o pai, enquanto Gretel e Bruno davam um passo adiante. “Gretel e Bruno.”
    “E qual é qual?”, disse o Fúria, coisa que fez rir a todos, exceto Bruno, que achava bastante óbvio qual era qual e que isso não era motivo para piadas. O Fúria estendeu a mão e cumprimentou o menino e Gretel, que fez uma cortesia cuidadosa e ensaiada. Bruno deleitou-se quando o gesto deu errado e ela quase caiu.
    “Que crianças encantadoras”, disse a mulher loira. “E quantos anos eles têm, se me permite a pergunta?”
    “Eu tenho doze, mas ele só tem nove”, disse Gretel, olhando desdenhosamente para o irmão. “E também sei falar francês”, acrescentou ela, o que não era exatamente verdade, embora tivesse aprendido algumas frases na escola.
    “Sim, mas por que você faria uma coisa dessas?”, perguntou o Fúria, e desta vez ninguém riu; na verdade, todos se remexeram no lugar, em sinal de desconforto, e Gretel encarou-o, sem saber se deveria responder ou não.
    O problema foi rapidamente resolvido, no entanto, pois o Fúria, que era o convidado mais mal-educado que Bruno já vira, deu meia-volta e foi direto até a sala de jantar, sentando-se prontamente na cabeceira da mesa – na cadeira do pai! – sem dizer outra palavra. Um pouco atrapalhados, a mãe e o pai o seguiram, e a mãe disse a Lars que podia começar a esquentar a sopa.
    “Eu também sei falar francês”, disse a linda mulher loira, inclinando-se e sorrindo para as duas crianças. Ela não parecia ter medo do Fúria, ao contrário da mãe e do pai. “O francês é um belo idioma e você faz bem em aprendê-lo.”
    “Eva”, gritou o Fúria do outro aposento, estalando os dedos como se ela fosse alguma espécie de filhote de estimação. A mulher girou os olhos nas órbitas e levantou-se lentamente, voltando-se para ele.
    “Gostei dos seus sapatos, mas eles parecem um pouco apertados em você”, ela acrescentou, sorrindo. “Se não pequenos, é melhor avisar sua mãe, antes que eles o machuquem.”
    “Estão um pouco apertados”, admitiu Bruno.
    “Eu não costumo pentear os cabelos em cachos”, disse Gretel, com ciúme da atenção que o irmão estava recebendo.
    “Mas por que não?”, perguntou a mulher. “Fica tão bonita desse jeito.”
    “Eva!”, rosnou o Fúria uma segunda vez, e ela então se afastou deles.
    “Foi um prazer conhecê-los”, ela disse, antes de entrar na sala de jantar e sentar-se ao lado esquerdo do Fúria. Gretel foi até a escada, mas Bruno ficou parado no mesmo lugar, observando a mulher loira até que o olhar dela encontrou o seu e ela acenou para o menino, bem quando o pai apareceu e fechou a porta, fazendo um gesto com a cabeça – que Bruno interpretou corretamente como hora de ir para o quarto, ficar bem quieto, não fazer barulho e, principalmente, não escorregar no corrimão.
    O Fúria e Eva ficaram lá por quase duas horas, e nem Bruno nem Gretel foram chamados escada abaixo para se despedir deles. Bruno observou-os indo embora da janela do quarto e reparou que, quando chegaram perto do carro, que o impressionou porque tinha um motorista, o Fúria não abriu a porta para sua acompanhante; em vez disso, entrou e começou a ler um jornal, enquanto ela se despedia uma última vez da mãe, agradecendo-lhe o delicioso jantar.
    Que homem horrível, pensou Bruno.
    Mais tarde naquela noite, Bruno escutou alguns trechos da conversa entre o pai e a mãe. Certas frases escaparam pela fechadura ou por sob a porta do escritório do pai e subiram pela escada e deram a volta pelo andar de cima e deslizaram por sob a porta do quarto de Bruno. Suas vozes estavam estranhamente altas e Bruno só conseguia entender fragmentos do que eles estavam conversando:
    “... que deixar Berlim. E ainda trocá-la por um lugar tão horrível...”, dizia a mãe.
    “... não temos escolha, ao menos não se quisermos prosseguir com...”, dizia o pai.
    “... como se fosse a coisa mais natural do mundo, e não é, simplesmente não é...”, dizia a mãe.
    “... o que aconteceria é que eu seria levado embora e tratado como um...”, dizia o pai.
    “... esperar que eles cresçam num lugar como...”, dizia a mãe.
    “... e o assunto está encerrado. Não quero ouvir nem mais uma palavra sobre...”, dizia o pai.
    Aquilo deve ter sido o fim da conversa porque a mãe saiu do escritório do pai e Bruno adormeceu.
    Alguns dias mais tarde ele chegou em casa vindo da escola e encontrou Maria em seu quarto, tirando todos os pertences dele do guarda-roupa e arrumando-os dentro de quatro caixotes de madeira, até mesmo aquelas coisas que ele escondera no fundo e que pertenciam somente a ele e não eram da conta de mais ninguém, e foi então que a história começou.

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