segunda-feira, 4 de março de 2013

Capítulo 12 - O Menino do Pijama Listrado

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SHMUEL PENSA NUMA RESPOSTA PARA A PERGUNTA DE BRUNO


    “Tudo o que eu sei é o seguinte”, começou Shmuel. “Antes de virmos para cá eu morava com minha mãe e meu pai e meu irmão Josef num pequeno apartamento sobre a loja onde papai fazia seus relógios. Todo dia tomávamos o café da manhã juntos às sete horas, e, enquanto íamos à escola, papai consertava os relógios que as pessoas lhe traziam e fazia alguns novos também. Eu tinha um lindo relógio que ele me deu, mas não está mais comigo. Era dourado, e toda noite eu dava corda nele antes de dormir, e ele sempre marcava a hora certa.”
    “O que aconteceu com ele?”, perguntou Bruno.
    “Eles o tomaram de mim”, disse Shmuel.
    “Quem?”
    “Os soldados, é claro”, disse Shmuel, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
    “E então um dia as coisas começaram a mudar”, ele prosseguiu. “Eu voltei da escola, e minha mãe estava costurando braçadeiras para nós, feitas de um tecido especial, e desenhando uma estrela sobre cada uma delas. Como esta.” Usando a ponta do dedo, ele reproduziu o desenho no chão poeirento.
 

  “E sempre que saíamos de casa, ela dizia, tínhamos de usar uma daquelas braçadeiras.”
    “Meu pai também usa uma”, disse Bruno. “Em seu uniforme. É bem bonita. É de um vermelho brilhante, com um desenho branco e preto feito por cima.” Usando a ponta do dedo ele reproduziu o outro desenho na poeira do chão do seu lado da cerca.
 

    “É, mas elas são diferentes, não?”, disse Shmuel.
    “Ninguém jamais me deu uma braçadeira”, disse Bruno.
    “Mas eu nunca pedi para usar uma delas”, disse Shmuel.
    “Mesmo assim”, disse Bruno, “acho que bem que eu gostaria de usar uma. Não sei qual delas eu preferiria, se a sua ou a do meu pai.”
    Shmuel balançou a cabeça e continuou sua história. Ele não costumava mais pensar naquelas coisas, uma vez que relembrar a antiga vida sobre a loja de relógios o entristecia muito.
    “Usamos as braçadeiras durante alguns meses”, ele disse. “E então as coisas mudaram novamente. Cheguei em casa um dia, e a mamãe disse que não poderíamos mais morar na nossa casa...”
    “Isso também aconteceu comigo!”, gritou Bruno, deleitando-se com o fato de não ser o único menino que fora obrigado a se mudar. “O Fúria veio para o jantar, sabe, e pouco depois nós tivemos que nos mudar para cá. E eu odeio este lugar”, ele acrescentou numa voz exaltada. “Por acaso ele foi até sua casa e fez o mesmo?”
    “Não, mas quando nos disseram que não podíamos mais morar na nossa casa, tivemos que nos mudar para outra parte de Cracóvia, onde os soldados haviam construído um grande muro, e minha mãe e meu pai e meu irmão e eu, todos tínhamos que morar no mesmo quarto.”
    “Vocês quatro”, perguntou Bruno. “Vivendo num único quarto?”
    “E não éramos apenas nós”, disse Shmuel. “Havia lá outra família morando conosco, e a mãe e o pai estavam sempre brigando, e um de seus filhos era maior do que eu e batia em mim, mesmo quando eu não havia feito nada de errado.”
    “Não é possível que tenham morado todos no mesmo quarto!”, disse Bruno, balançando a cabeça. “Não faz o menor sentido.”
    “Todos nós nos mesmo quarto”, disse Shmuel, acenando afirmativamente. “Éramos onze ao todo.”
    Bruno abriu a boca para contradizê-lo novamente – ele não podia acreditar que onze pessoas pudessem viver juntas num mesmo quarto -, mas mudou de idéia.
    “Moramos lá por mais alguns meses”, continuou Shmuel, “todos nós naquele único quarto. Havia apenas uma pequena janela, só que eu não gostava de olhar através dela porque, então, via o muro, e eu odiava o muro, porque nossa verdadeira casa ficava do outro lado. E aquela parte da cidade era a parte ruim, porque havia sempre muito barulho e era impossível dormir. E eu odiava o Luka, que era o menino que continuava me batendo, mesmo quando eu não tinha feito nada de errado.”
    “Gretel me bate às vezes”, disse Bruno. “É a minha irmã”, acrescentou ele. “E também um Caso Perdido. Mas logo eu serei maior e mais forte e, então, ela não vai nem mesmo saber de onde veio o tapa.”
    “Então, um dia vieram os soldados e seus gigantescos caminhões”, continuou Shmuel, que não parecia muito interessado em Gretel. “E todos tiveram que deixar suas casas. Muitas pessoas não queriam ir e se esconderam em qualquer lugar que puderam encontrar, mas, afinal, acho que pegaram todos. E os caminhões nos levaram a um trem, e o trem...” Ele hesitou por um instante e mordeu o lábio. Bruno pensou que ele ia começar a chorar e não entendeu por quê.
    “O trem era horrível”, disse Shmuel. “Havia muitos de nós nos vagões, para começar. E não havia ar para respirar. E o cheiro era terrível.”
    “Mas isso é porque vocês estavam amontoados num único trem”, disse Bruno, lembrando-se dos dois trens que vira na estação no dia em que deixou Berlim. “Quando viemos para cá, havia outro trem no lado oposto da plataforma, só que ninguém parecia vê-lo. Foi neste que nós entramos. Você devia ter subido neste trem também.”
    “Acho que não seríamos admitidos”, disse Shmuel, balançando a cabeça. “Não podíamos sair do vagão.”
    “As portas ficam no final”, explicou Bruno.
    “Não havia portas”, disse Shmuel.
    “É claro que havia portas”, disse Bruno num suspiro. “Ficam no final”, repetiu ele. “Logo depois do restaurante.”
    “Não havia portas”, insistiu Shmuel. “Se houvesse, teríamos todos descido.”
    Bruno murmurou alguma coisa em voz baixa como “É claro que havia”, mas não muito alto e Shmuel não pôde ouvi-lo.
    “Quando finalmente o trem parou”, prosseguiu Shmuel, “estávamos num lugar muito frio e tivemos que caminhar até aqui.”
    “Nós tínhamos um carro nos esperando”, disse Bruno, agora em voz alta.
    “E levaram minha mãe embora, e papai, Josef e eu fomos colocados nas cabanas logo ali e é onde ficamos desde então.”
    Shmuel parecia muito triste ao contar sua história e Bruno não sabia ao certo por quê; para ele não parecia algo tão terrível e, afinal, muito do que acontecera a um acontecera ao outro.
    “Há muitos outros meninos do seu lado da cerca?”, perguntou Bruno.
    “Centenas”, disse Shmuel.
    Os olhos de Bruno se arregalaram. “Centenas?”, ele disse estupefato. “Não é justo. Deste lado da cerca não há ninguém com quem brincar. Nem uma única pessoa.”
    “Nós não brincamos”, disse Shmuel.
    “Não brincam? Mas por que vocês não brincam?”
    “De que brincaríamos?”, perguntou ele, seu rosto parecendo confuso só de pensar na idéia.
    “Bem, eu não sei”, disse Bruno. “De qualquer coisa. Futebol, por exemplo. Ou exploração. Como é a exploração aí do seu lado da cerca? É legal?”
    Shmuel balançou a cabeça e não respondeu. Ele olhou de volta para as cabanas e se voltou para Bruno. Não queria fazer a próxima pergunta, mas a dor em seu estômago o obrigou a fazê-la.
    “Trouxe alguma comida com você?”, ele perguntou.
    “Infelizmente não”, disse Bruno. “Eu pensei em trazer um pedaço de chocolate, mas esqueci.”
    “Chocolate”, disse Shmuel bem devagar, sua língua saindo de trás dos dentes. “Só comi chocolate uma vez na vida.”
    “Uma vez? Eu adoro chocolate. Não consigo enjoar, se bem que minha mãe diga que isso faz os dentes apodrecerem.”
    “Trouxe algum pão?”
    Bruno balançou a cabeça. “Nada mesmo”, disse ele. “O jantar só é servido às seis e meia. A que horas servem o seu jantar?”
    Shmuel deu de ombros e se levantou. “Acho melhor voltar”, ele disse.
    “Quem sabe você possa vir jantar conosco uma noite qualquer”, disse Bruno, embora não estivesse certo de que seria uma boa idéia.
    “Quem sabe”, disse Shmuel, apesar de não ter soado muito convincente.
    “Ou eu poderia ir até aí”, disse Bruno. “Quem sabe você me apresenta aos seus amigos”, acrescentou ele, esperançoso. Ele torceu para que Shmuel abraçasse sua idéia, mas aparentemente ele não o faria.
    “É que você está do lado errado da cerca”, disse o outro menino.
    “Eu poderia rastejar por baixo dela”, disse Bruno, abaixando-se e agarrando o arame e o erguendo do chão. No meio, entre os postes telegráficos de madeira, o arame levantava facilmente e um menino no tamanho de Bruno conseguiria passar sem dificuldade.
    Shmuel observou-o fazendo isso e afastou-se, nervoso. “Tenho que voltar”, disse ele.
    “Quem sabe numa outra tarde”, disse Bruno.
    “Eu não deveria estar aqui. Se me pegarem, estarei encrencado.”
     Ele se voltou e caminhou na direção oposta e Bruno constatou como seu novo amigo era pequeno e magro. Ele nada comentou sobre isso porque sabia muito bem como é desagradável ser criticado por uma coisa tão boba quanto a própria altura, e a última coisa que ele queria era ofender Shmuel.
    “Voltarei amanhã”, gritou Bruno para o menino que o deixava, e Shmuel não respondeu; na verdade ele começou a correr na direção do campo, deixando Bruno sozinho.
    Bruno decidiu que já explorara mais do que o suficiente para um dia e foi para casa animado pelo que acontecera e desejoso de contar à mãe a ao pai e à Gretel – que teria tanta inveja que era capaz de explodir – e à Maria e ao cozinheiro e a Lars tudo sobre sua aventura naquela tarde com seu novo amigo de nome engraçado e que fazia aniversário no mesmo dia que ele; contudo, quanto mais se aproximava da casa, mais ele pensava que talvez essa não fosse uma boa idéia.
    Afinal, Bruno raciocinou, era possível que eles não quisessem mais que ele e Shmuel fossem amigos, e, se isso acontecesse, eles o impediriam de sair de lá para o que quer que fosse. Quando passou pela porta da frente e sentiu o cheiro do filé que estava assando no forno para o jantar, já tinha decidido que o melhor era ficar quieto sobre o que havia acontecido e não dizer uma palavra a respeito. Seria o seu segredo. Bem, o segredo dele e de Shmuel.
    Bruno era da opinião de que, em se tratando de pais, e especialmente em se tratando de irmãs, tudo o que eles não sabiam não podia feri-los.

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