segunda-feira, 4 de março de 2013

Capítulo 15 - O Menino do Pijama Listrado

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ALGO QUE ELE NÃO DEVIA TER FEITO


Durante muitas semanas a chuva começou e parou e começou e parou, e Bruno e Shmuel não puderam se encontrar tanto quanto desejavam. Quando se encontraram, Bruno percebeu que estava preocupado com o amigo, pois ele parecia mais magro a casa dia, e o seu rosto, mais cinza. Às vezes ele trazia consigo um pouco de pão e queijo para levar a Shmuel, e conseguiu até mesmo esconder um pedaço do bolo de chocolate no bolso, mas a caminhada da casa até o ponto na cerca onde os dois costumavam se encontrar era longa, e às vezes Bruno sentia fome no meio do caminho. Ele acabou descobrindo que uma mordida de bolo levava a outra, que por sua vez levava a outra e, quando restava apenas um bocado, sabia que não seria certo oferecer tão pouco a Shmuel, porque apenas serviria para abrir-lhe o apetite sem satisfazê-lo.
    O aniversário do pai estava chegando, e, embora ele tivesse dito que não queria estardalhaço nenhum, a mãe preparou uma festa para todos os oficiais que estavam servindo em Haja-Vista, e houve grande estardalhaço nos preparativos. Toda vez que ela se sentava para fazer mais planos para a festa, o tenente Kotler estava ao seu lado para auxiliá-la, e os dois pareciam fazer listas e mais listas, muito mais do que seriam necessárias.
    Bruno decidiu fazer sua própria lista. Uma lista de todos os motivos pelos quais ele não gostava do tenente Kotler.
    Antes de tudo, havia o fato de que ele nunca sorria e sempre parecia procurar alguém para esfaquear de acordo com sua vontade.
    Nas raras ocasiões em que se dirigia a Bruno, tratava-o de “homenzinho”, o que era simplesmente um desaforo, pois, como a mãe já afirmara, o menino ainda não tivera o seu estirão de crescimento.
    Sem falar no fato de que ele estava sempre com a mãe na sala de estar fazendo piadas, das quais ela ria mais do que das piadas do pai.
    Certa vez, quando estava observando o campo da janela de seu quarto, Bruno viu um cachorro se aproximar da cerca e começar a latir bem alto. Quando o tenente Kotler o ouviu, marchou direto para o cão e atirou nele. E ainda havia todas as besteiras que vinham de Gretel sempre que ele estava por perto.
    E Bruno ainda não se esquecera do que ocorrera naquela noite com Pavel, o servente que na verdade era médico, e de como o jovem tenente havia ficado bravo.
    Além disso, sempre que o pai era chamado a Berlim para uma viagem e passava a noite fora, o tenente ficava na casa como se estivesse no comando: estava lá quando Bruno ia para a cama e estava de volta pela manhã, antes mesmo de o menino acordar.
    Havia muito mais razões pelas quais Bruno não gostava do tenente Kotler, mas estas foram as primeiras que lhe vieram à mente.
    Na tarde anterior à festa de aniversário, Bruno estava no seu quarto, com a porta aberta, quando ouviu o tenente Kotler chegando na casa e falando com alguém, embora não ouvisse ninguém responder. Alguns minutos mais tarde, quando estava descendo as escadas, ele escutou a voz da mãe passando instruções quanto ao que deveria ser feito e o tenente Kotler dizendo: “Não se preocupe, este aqui sabe quais botas lamber”. E depois deu uma horrível gargalhada.
    Bruno foi até a sala de estar com o novo livro que o pai havia lhe dado, chamado A ilha do tesouro, com a intenção de sentar-se por lá durante uma ou duas horas para lê-lo, mas, ao passar pelo corredor, deu de cara com o tenente Kotler, que estava saindo da cozinha.
    “Olá, homenzinho”, disse o soldado, caçoando dele como de costume.
    “Olá”, disse Bruno, franzindo o cenho.
    “O que está aprontando?”
    Bruno olhou para ele e começou a pensar em mais sete motivos para detestá-lo. “Vou até ali para ler meu livro”, disse ele, apontando para a sala de estar.
    Sem dizer uma palavra, Kotler tomou o livro das mãos de Bruno e se pôs a folheá-lo. “A ilha do tesouro”, disse ele. “É sobre o quê?”
    “Bem, há uma ilha”, disse Bruno lentamente, para certificar-se que o soldado estava acompanhando. “E há um tesouro nela.”
    “Isso eu poderia ter adivinhado”, disse Kotler, olhando para Bruno como se houvesse coisas que faria ao menino se fosse filho dele e não o filho do comandante. “Diga algo a respeito dele que eu ainda não saiba.”
    “Há um pirata”, disse Bruno. “Chamado Long John Silver. E um menino chamado Jim Hawkins.”
    “Um menino inglês?”, perguntou Kotler.
    “Sim”, disse Bruno.
    “Hmpf”, grunhiu Kotler.
    Bruno encarou-o e pensou quanto tempo demoraria até que recebesse o livro de volta. O soldado não parecia interessado na história, mas quando Bruno estendeu a mão para pegá-lo, ele afastou o livro do menino.
    “Desculpe”, ele disse, deixando o livro ao alcance de Bruno; contudo, quando este estendeu a mão para pegá-lo, ele afastou o livro novamente. “Oh, eu sinto muitíssimo”, disse Kotler, repetindo o gesto, mas desta feita Bruno tomou-o da mão do soldado mais rápido do que este poderia afastá-lo.
    “Rapidinho, hein?”, murmurou entre os dentes o tenente Kotler.
    Bruno tentou passar por ele, porém por algum motivo o tenente Kotler parecia querer conversar com o menino naquele dia.
    “Estamos todos preparados para a festa amanhã?”, ele perguntou.
    “Bem, eu estou”, disse Bruno, que estivera passando mais tempo na companhia de Gretel ultimamente e desenvolvera o gosto pelo sarcasmo. “Não posso falar por você.”
    “Haverá muita gente aqui”, disse o tenente Kotler, respirando pesado e olhando ao redor como se aquela fosse a sua casa, e não a de Bruno. “Ficaremos bem comportadinhos, não é?”
    “Bem, eu ficarei”, disse Bruno. “Não posso falar por você.”
    “Você tem muito a dizer para um homenzinho tão pequeno”, disse o tenente Kotler.
    Bruno estreitou os olhos e desejou ser mais alto, mais forte e oito anos mais velho. Uma bola de raiva explodiu dentro dele e o fez desejar que tivesse a coragem de dizer exatamente o que queria dizer. Ele decidiu que uma coisa era ser mandado pela mãe e pelo pai – o que era perfeitamente razoável e de se esperar -, mas outra coisa completamente diferente era ser mandado por outra pessoa. Mesmo que fosse alguém com um título importante como “tenente”.
    “Oh, Kurt, querido, você ainda está aqui”, disse a mãe, saindo da cozinha e vindo na direção deles. “Tenho um pouco de tempo livre agora se... Oh!”, disse ela ao notar Bruno ali de pé. “Bruno! O que está fazendo aqui?”
    “Estava indo até a sala de estar para ler meu livro”, disse Bruno. “Ao menos era o que eu estava tentando fazer.”
    “Bem, entre na cozinha por um instante”, disse ela. “Eu preciso ter uma conversa a sós com o tenente Kotler.”
    Fumegando de raiva, Bruno entrou na cozinha e teve a maior surpresa de toda a sua vida. Ali, sentado à mesa, muito longe do outro lado da cerca, estava Shmuel. Bruno mal podia acreditar nos próprios olhos.
    “Shmuel!”, disse ele. “O que você está fazendo aqui?”
    Shmuel ergueu os olhos e o seu rosto aterrorizado deu lugar a um grande sorriso quando viu o amigo ali com ele. “Bruno!”, ele disse.
    “O que você está fazendo aqui?”, repetiu Bruno, pois, embora ainda não entendesse exatamente o que acontecia do outro lado da cerca, havia algo a respeito das pessoas que ficavam lá que fazia Bruno pensar que elas não deveriam estar ali na casa dele.
    “Ele me trouxe aqui”, disse Shmuel.
    “Ele?”, perguntou Bruno. “Está falando do tenente Kotler?”
    “Sim. Ele disse que havia um serviço para mim aqui.”
    E, quando Bruno olhou para baixo, viu sessenta e quatro pequenas taças, do tipo que a mãe usava para tomar seus tragos de xerez medicinal, dispostas sobre a mesa da cozinha, e ao lado delas uma tigela de água quente e ensaboada e muitos guardanapos de papel.
    “Mas o que você está fazendo?”
    “Eles me pediram para lustrar as taças”, disse Shmuel. “Disseram que precisavam de alguém com dedos pequenos.”
    Como se quisesse provar algo que Bruno já sabia, ele estendeu a mão, e Bruno não pôde deixar de reparar que era como a mão do esqueleto de mentira que herr Liszt trouxera certo dia quando estavam estudando a anatomia humana.
    “Eu nunca tinha reparado antes”, disse ele numa voz incrédula, quase para si mesmo.
    “Nunca tinha reparado no quê?”, perguntou Shmuel.
    Em resposta, Bruno estendeu a própria mão de maneira que as pontas de seus dedos médios quase se tocaram. “Nossas mãos”, disse ele. “São tão diferentes. Veja!”
    Os dois meninos olharam para baixo ao mesmo tempo e a diferença era evidente. Embora Bruno fosse pequeno para  idade, e certamente não era gordo, sua mão parecia saudável e cheia de vida. As veias não eram visíveis através da pele, os dedos não eram pouco mais do que galhos retorcidos e moribundos. A mão de Shmuel, entretanto, contava uma história muito diferente.
    “Como ficou assim?”, perguntou Bruno.
    “Não sei”, disse Shmuel. “Antigamente ela era mais parecida com a sua, mas eu não percebi a mudança. Todos do meu lado da cerca são assim agora.”
    Bruno franziu o cenho. Pensou a respeito de todas aquelas pessoas de pijama listrado e imaginou o que estaria acontecendo em Haja-Vista e, o que quer que fosse, devia ser uma má idéia, uma vez que fazia as pessoas ficarem com um aspecto tão debilitado. Nada daquilo fazia sentido para ele. Não querendo mais olhar para a mão de Shmuel, Bruno deu meia-volta e abriu a geladeira, procurando descobrir alguma coisa para comer. Havia meia galinha recheada que sobrara do almoço, e seus olhos faiscaram deleitados pela visão, pois havia pouquíssimas coisas na vida de que ele gostasse mais do que galinha fria com recheio de sálvia e cebola. Pegou uma faca na gaveta e cortou para si alguns pedaços respeitáveis, cobrindo-os com o recheio, antes de voltar a atenção novamente para o amigo.
    “Fico muito contente por vê-lo aqui”, disse ele, falando de boca cheia. “Pena que você tem que lustrar estas taças, senão eu poderia mostrar-lhe o meu quarto.”
    “Ele me disse para não sair desta cadeira ou haveria encrenca.”
    “Eu não daria muita bola se fosse você”, disse Bruno, tentando parecer mais corajoso do que realmente era. “Esta não é a casa dele, é a minha, e quando meu pai está fora sou eu quem manda aqui. Acredita que ele nunca leu A ilha do tesouro?”
    Shmuel parecia não estar ouvindo o que o outro dizia; seus olhos estavam focados nos pedaços de galinha recheada que Bruno lançava casualmente à boca. Após um instante, Bruno se deu conta de que o amigo estava olhando para a sua comida e imediatamente sentiu-se culpado.
    “Desculpe-me, Shmuel”, disse ele rapidamente. “Eu deveria ter lhe oferecido um pouco de galinha também. Está com fome?”
    “Esta é uma pergunta que você nunca precisa me fazer”, disse Shmuel, que, apesar de não ter conhecido Gretel, também sabia alguma coisa de sarcasmo.
    “Espere um pouco, vou servir umas fatias para você”, disse Bruno, abrindo a geladeira e cortando mais três pedaços generosos.
    “Não, se ele volta...”, disse Shmuel, virando a cabeça rapidamente, olhando ora para Bruno, ora para a porta.
    “Se quem voltar? Está falando do tenente Kotler?”
    “Eu só vim lustrar as taças”, ele disse, olhando desesperado para a bacia de água diante de si e para as fatias de galinha que Bruno estava oferecendo.
    “Ele não vai se importar”, disse Bruno, que estava confuso por causa da evidente ansiedade de Shmuel. “É apenas comida.”
    “Não posso”, disse Shmuel, balançando a cabeça e dando a impressão de que ia chorar. “Ele vai voltar, eu sei que vai”, prosseguiu o menino, as frases rápidas e embaralhadas. “Eu devia ter comido quando você ofereceu pela primeira vez, agora é tarde demais, se eu aceitar ele vai voltar e...”
    “Shmuel! Tome!”, disse Bruno, dando um passo adiante e pondo as fatias na mão do amigo. “Apenas coma. Tem muito mais para a hora do chá – não precisa se preocupar com isso.”
    O menino olhou primeiro para a comida em sua mão e depois para Bruno com olhos arregalados e agradecidos, porém aterrorizados. Ele deu uma última olhada na direção da porta e então pareceu ter tomado uma decisão, porque meteu os três pedaços de uma só vez na boca e os engoliu em exatos vinte segundos.
    “Bom, também não precisa comer tão depressa”, disse Bruno. “Assim vai passar mal.”
    “Não me importo”, disse Shmuel, sorrindo levemente. “Obrigado, Bruno.”
    Bruno sorriu de volta e estava prestes a oferecer-lhe mais um pouco de comida, quando o tenente Kotler reapareceu na cozinha e se deteve ao ver os dois meninos conversando. Bruno olhou para ele, sentindo a atmosfera fica tensa, vendo os ombros de Shmuel se abaixarem enquanto o menino procurava outra taça e começava a lustrá-la. Ignorando Bruno, o tenente Kotler marchou até Shmuel e ficou olhando ameaçadoramente para ele.
    “O que está fazendo?”, gritou ele. “Eu não mandei lustrar as taças?”
    Shmuel acenou com a cabeça rapidamente e começou a tremer enquanto pegava outro guardanapo e o mergulhava na água.
    “Quem disse que você podia falar nesta casa?”, prosseguiu Kotler. “Ousa me desobedecer?”
    “Não, senhor”, disse Shmuel em voz baixa. “Desculpe-me, senhor.”
    Ele ergueu os olhos para o tenente Kotler, que franziu o cenho, projetando-se levemente para a frente e inclinando a cabeça ao examinar o rosto do garoto. “Você andou comendo?”, perguntou numa voz baixíssima, como se nem pudesse acreditar naquilo.
    Shmuel balançou a cabeça.
    “Andou comendo, sim”, insistiu o tenente Kotler. “Roubou alguma coisa daquela geladeira?”
    Shmuel abriu a boca e a fechou. Abriu-a novamente, procurando as palavras, mas não as encontrou. Ele olhou para Bruno, seus olhos implorando por ajuda.
    “Responda!”, gritou o tenente Kotler. “Roubou alguma coisa daquela geladeira?”
    “Não, senhor. Foi ele quem me deu”, disse Shmuel, as lágrimas se juntando em seus olhos enquanto lançava um olhar de soslaio para Bruno. “Ele é meu amigo”, acrescentou.
    “Seu...?”, começou o tenente Kotler, olhando confuso para Bruno do outro lado da cozinha. Ele hesitou. “Como assim, ele é seu amigo?”, perguntou. “Conhece este menino, Bruno?”
   Bruno abriu a boca e tentou se lembrar de como eram os movimentos quando se quer dizer a palavra “sim”. Ele jamais vira alguém tão aterrorizado quanto Shmuel naquele instante e queria dizer a coisa certa para melhorar a situação, mas então percebeu que não conseguia, pois estava tão aterrorizado quanto o amigo.
    “Conhece este menino?”, repetiu Kotler numa voz mais alta. “Esteve conversando com os prisioneiros?”
    “Eu... ele estava aqui quando entrei”, disse Bruno. “Estava limpando as taças.”
    “Não foi o que eu perguntei”, disse Kotler. “Já o viu antes? Conversou com ele? Por que ele diz que vocês são amigos?”
    Bruno queria poder fugir. Ele odiava o tenente Kotler, que agora avançava sobre ele, e tudo o que Bruno conseguiu se lembrar foi da tarde em que vira o tenente atirar no cachorro e da noite em que ele ficara tão bravo com Pavel que...
    “Diga, Bruno!”, gritou Kotler com o rosto vermelho. “Não perguntarei pela terceira vez.”
    “Nunca falei com ele”, disse Bruno imediatamente. “Nunca o vi antes em minha vida. Não o conheço.”
    O tenente Kotler balançou a cabeça e pareceu ficar satisfeito com a resposta. Lentamente ele voltou a cabeça para olhar para Shmuel, que não estava mais chorando; o menino apenas olhava para o chão, dando a impressão de que tentava convencer sua alma a não mais habitar o pequeno corpo e a fugir pela janela e voar bem alto até o céu, indo o mais longe possível.
    “Termine de lustrar estas taças”, disse o tenente numa voz muito baixa, tão baixa que Bruno quase não pôde ouvi-lo. Foi como se toda a sua raiva tivesse se transformado em outra coisa. Não o oposto, mas em algo inesperado e assustador. “E depois eu virei buscá-lo e o levarei de volta ao campo, onde teremos uma conversa sobre o que acontece com meninos que roubam. Entendido?”
    Shmuel fez que sim com a cabeça, pegou outro guardanapo e começou a lustrar outra taça; Bruno observou como seus dedos tremiam e soube quanto medo ele tinha de acabar quebrando uma delas. Parecia que seu coração ia afundar, mas, por mais que quisesse, não conseguia desviar os olhos.
    “Venha, homenzinho”, disse o tenente Kotler, indo na direção de Bruno e colocando um braço pouco amigável ao redor do ombro do garoto. “Vá até a sala de estar ler o seu livro e deixe o pequeno... terminar seu trabalho.” Ele usou a mesma palavra que usara para se referir a Pavel quando o mandou à procura do pneu.
    Bruno assentiu, deu meia-volta e saiu da cozinha sem olhar para trás. Seu estômago estava revirado por dentro, e ele pensou por um instante que fosse vomitar. Jamais se sentira tão envergonhado em toda sua vida; nunca imaginou que seria capaz de se comportar com tamanha crueldade. Perguntou-se como poderia um menino que pensava ser uma boa pessoa agir de maneira tão covarde em relação a um amigo. Ele se sentou na sala de estar durante muitas horas, mas não conseguiu se concentrar no livro nem ousou voltar à cozinha até bem mais tarde, quando o tenente Kotler já havia voltado e levado Shmuel de novo ao campo.

    Nas tardes seguintes, Bruno retornou ao ponto da cerca onde os dois costumavam se encontrar, mas Shmuel nunca mais apareceu. Depois de quase uma semana ele se convenceu de que o que havia feito fora tão terrível que jamais seria perdoado, porém no sétimo dia ficou extasiado ao ver Shmuel esperando por ele, sentado de pernas cruzadas no chão, como sempre, e olhando para a poeira debaixo de si.
    “Shmuel’, disse ele, correndo na direção do amigo e sentando-se, quase chorando de alívio e arrependimento. “Eu sinto tanto, Shmuel. Não sei por que fiz aquilo. Diga que me perdoa.”
    “Tudo bem”, disse Shmuel, olhando para ele. Seu rosto estava todo machucado e Bruno fez uma careta, por um instante se esquecendo das desculpas que estava pedindo.
    “O que aconteceu com você?”, ele perguntou, mas não esperou pela resposta. “Foi a bicicleta?” Porque uma vez isso aconteceu comigo lá em Berlim há uns dois anos. Eu caí da bicicleta quando estava indo rápido demais e fiquei todo roxo durante semanas. Está doendo?”
    “Nem sino mais”, disse Shmuel.
    “Parece que dói.”
    “Já não sinto mais nada”, disse Shmuel.
    “Bem, sinto muito pela semana passada”, disse Bruno. “Eu odeio aquele tenente Kotler. Ele pensa que é o manda-chuva, mas não é.” Bruno hesitou por um instante, sem querer perder o fio da meada. Sentiu que deveria dizer mais uma vez e com muita sinceridade. “Eu sinto muitíssimo, Shmuel”, disse numa voz bem clara. “Não posso acreditar que não contei a ele a verdade. Nunca desapontei um amigo dessa maneira antes. Shmuel, estou envergonhado de mim mesmo.”
    Quando Bruno disse isso, Shmuel sorriu e balançou a cabeça e Bruno soube que estava perdoado. Então Shmuel fez algo que nunca havia feito antes: ele ergueu a parte de baixo da cerca como sempre fazia quando o amigo lhe trazia comida, mas desta vez ele estendeu a mão por baixo e a manteve lá, esperando até que Bruno fizesse o mesmo. Os dois meninos apertaram as mãos e sorriram um para o outro.
    Foi a primeira vez que eles se tocaram.

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