segunda-feira, 4 de março de 2013

Capítulo 22 - A Culpa é das Estrelas

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Capítulo 22

ssim que chegamos lá eu me sentei no fundo da sala de visitas da igreja, um cômodo pequeno de paredes de pedra ao lado do santuário na igreja do Coração Literal de Jesus. Havia mais ou menos umas oitenta cadeiras dispostas pela sala, que estava dois terços cheia, mas a sensação era de que estava um terço vazia.
Por um tempo, fiquei só olhando as pessoas indo até o caixão em cima de um tipo de carrinho coberto com um pano roxo. Todas aquelas pessoas que eu nunca tinha visto se ajoelhavam ao lado dele ou paravam ao lado dele e o olhavam por alguns instantes, umas chorando, outras dizendo alguma coisa, e então todas colocavam a mão no caixão, em vez de nele, porque ninguém quer tocar os mortos.
A mãe e o pai do Gus estavam em pé ao lado do caixão, abraçando as pessoas conforme iam passando, mas aí me viram, sorriram e vieram até mim. Eu me levantei e abracei primeiro o pai, depois a mãe, que me deu um abraço bem forte, como o Gus costumava fazer, apertando minhas clavículas. Os dois pareciam muito envelhecidos — os olhos fundos, a pele flácida dos rostos exaustos. Eles também haviam chegado ao fim de uma corrida com obstáculos.
— Ele amava tanto você… — a mãe do Gus disse. — Ele a amava de verdade. Não era um amor qualquer de adolescente — ela acrescentou, como se eu não soubesse.
— Ele também amava muito você — falei baixinho. É difícil explicar, mas ao falar com os pais do Gus parecia que eu estava dando uma facada neles e eles, em mim. — Sinto muito — eu disse.
E então os pais dele foram falar com os meus pais, a conversa limitada a gestos de cabeça e lábios apertados. Olhei para o caixão e vi que não havia ninguém em volta, então decidi andar até lá. Tirei a cânula das
A
narinas e levantei o cilindro de oxigênio, entregando-o para o papai. Eu queria que fôssemos só eu e só ele. Peguei minha bolsinha de mão e andei pelo corredor criado pelas fileiras de cadeiras.
A caminhada parecia longa, mas fiquei dizendo aos meus pulmões para se comportarem, que eles eram fortes, que podiam fazer aquilo. Pude ver o Gus ao me aproximar do caixão: o cabelo estava perfeitamente repartido do lado esquerdo, de um jeito que ele teria achado absolutamente horrível, e seu rosto parecia plastificado. Mas ainda era o Gus. Meu magro e belo Gus.
Quis usar o vestido preto que havia comprado para minha festa de aniversário de quinze anos, meu vestido mortuário, mas não cabia mais, então usei um vestido preto liso que ia até o joelho. O Augustus estava com o mesmo terno de lapela fina que havia usado no Oranjee.
Quando ajoelhei, percebi que eles haviam fechado seus olhos, claro que tinham feito isso, e que eu nunca mais veria aqueles olhos azuis.
— Eu te amo no presente do indicativo — sussurrei, e coloquei minha mão no meio do peito dele. — Está tudo bem, Gus. Tudo bem. Está. Está tudo bem, ouviu? — Não tinha, e não tenho, absolutamente nenhuma esperança de que ele pudesse me ouvir. Eu me inclinei para a frente e beijei a bochecha dele. — O.k. — falei. — O.k.
De repente me dei conta de que havia várias pessoas nos olhando, e que, na última vez em que tantas pessoas viram um beijo nosso, nós estávamos na casa da Anne Frank. Mas não havia mais, por assim dizer, um ‚nós‛ para se ver. Só um ‚eu‛.
Abri a bolsinha, enfiei a mão nela e tirei de lá um maço de Camel Lights. Num gesto rápido, que, eu esperava, ninguém atrás de mim ia reparar, enfiei-o no espaço entre o corpo dele e o forro de plush prateado do caixão.
— Você pode acender esses — sussurrei. — Não vou me importar.
* * *

Enquanto eu falava com ele, a mamãe e o papai haviam se deslocado para
a segunda fileira de cadeiras com meu cilindro, para que eu não tivesse de andar muito ao voltar. O papai me deu um lenço de papel quando me sentei. Assoei o nariz, ajeitei os tubos nas orelhas e reinseri os cateteres nasais.
Achei que iríamos até o santuário propriamente dito para a cerimônia, mas tudo aconteceu naquela pequena sala lateral, a Mão Literal de Jesus, acho — a parte da cruz na qual ele fora pregado. Um pastor se posicionou atrás do caixão, quase como se o caixão fosse um púlpito, e tal, e falou um pouco sobre como o Augustus havia enfrentado uma batalha corajosa e como o heroísmo dele diante da doença foi uma inspiração para todos nós, e eu já estava começando a ficar irritada com o homem quando ele disse: ‚No paraíso, o Augustus vai, finalmente, ser curado e ficar inteiro‛, o que implicava que ele tinha sido menos inteiro que as outras pessoas por lhe faltar uma perna, e eu meio que não consegui evitar um suspiro de repulsa. Meu pai colocou a mão na minha perna, logo acima do joelho, e me lançou um olhar de desaprovação, mas da fileira logo atrás de mim alguém resmungou perto do meu ouvido, tão baixo que quase não deu para escutar:
— Quanta baboseira, hein, garota?
Eu me virei.
O Peter Van Houten usava um terno de linho branco, feito sob medida para abarcar sua rotundidade, uma camisa azul-claro e uma gravata verde. Parecia que estava vestido para uma ocupação colonial do Panamá, não para um enterro. O pastor falou:
— Oremos. Mas enquanto todo mundo baixava a cabeça, eu só conseguia olhar boquiaberta para aquela visão do Peter Van Houten.
Depois de alguns segundos, ele sussurrou:
— Temos de fingir que estamos orando — e baixou a cabeça.
Tentei tirá-lo da cabeça e só rezar para o Augustus. Decidi prestar atenção ao que o pastor estava falando e não olhar para trás.
O pastor chamou o Isaac, que estava muito mais sério do que no pré-enterro.
— O Augustus Waters era o prefeito da Cidade Secreta de
Cancervânia, e ele não é substituível — o Isaac começou. — Outras pessoas poderão contar histórias engraçadas sobre o Gus, porque ele era um cara engraçado, mas vou contar uma história séria: um dia depois de arrancarem meu olho, o Gus apareceu no hospital. Eu estava cego, com o coração partido e não queria fazer nada. Ele entrou como um furacão no meu quarto e gritou: ‚Trago ótimas notícias!‛ E eu falei, tipo: ‚Não estou a fim de ouvir ótimas notícias agora‛, e o Gus disse: ‚Essas são ótimas notícias que você vai querer ouvir‛, e perguntei para ele: ‚Tá, o que é?‛, e ele respondeu: ‚Você vai viver uma vida boa e duradoura cheia de momentos maravilhosos e terríveis que você ainda não tem nem como imaginar como serão!‛
O Isaac não conseguiu continuar, ou então aquilo era tudo o que tinha escrito.
* * *

Depois que um amigo da escola contou algumas histórias sobre os talentos consideráveis do Gus no basquete e suas muitas qualidades como companheiro de equipe, o pastor disse:
— Agora vamos ouvir algumas palavras de uma amiga especial do Augustus.
Amiga especial?
Algumas risadinhas foram ouvidas entre o público presente, então achei que não haveria problema se eu começasse dizendo para o pastor:
— Eu era a namorada dele.
Aquilo provocou algumas risadas. E então comecei a ler o papel com o elogio fúnebre que eu tinha escrito.
— Há uma citação muito boa na casa do Gus, uma que tanto ele quanto eu achamos muito reconfortante: Sem dor, não poderíamos reconhecer o prazer.
Prossegui citando vários Encorajamentos de merda enquanto os pais do Gus, de braços dados, se abraçavam e anuíam com a cabeça a cada palavra. Cheguei a uma conclusão: cerimônias como essa são para os vivos.
* * *

Depois que a Julie, a irmã dele, falou, a cerimônia foi encerrada com uma oração que falava sobre a união de Gus com Deus, e aí eu pensei no que ele tinha dito no Oranjee, que não acreditava em mansões e harpas, mas que acreditava, sim, em Algo com A maiúsculo, então tentei imaginá-lo em Algum lugar com A maiúsculo enquanto rezávamos, mas mesmo naquele momento não consegui me convencer direito de que nós dois ficaríamos juntos de novo. Eu já conhecia muitas pessoas mortas. Sabia que agora o tempo passaria para mim de um jeito diferente do que passaria para ele. Que eu, como todas as pessoas naquele ambiente, seguiria acumulando amores e perdas enquanto ele, não. E para mim aquela era a tragédia final e verdadeiramente insuportável: como todos os inumeráveis mortos, ele havia sido, de uma vez por todas, rebaixado de assombrado para assombração.
E aí um dos cunhados do Gus havia levado um aparelho de som portátil e eles botaram para tocar uma música que o Gus havia escolhido: uma canção triste e lenta do The Hectic Glow chamada ‚The New Partner‛. Sinceramente, tudo o que eu queria era ir para casa. Eu não conhecia quase nenhuma daquelas pessoas, e podia sentir os olhinhos do Peter Van Houten olhando detidamente para meus ombros expostos, mas, depois que a música terminou, todos tiveram de vir até mim e me dizer que o que eu falei foi lindo e que aquela tinha sido uma cerimônia adorável, o que era mentira: aquilo era uma cerimônia de enterro. E se parecia com qualquer outra cerimônia de enterro.
Os carregadores do caixão dele — alguns primos, o pai, um tio, amigos que eu nunca tinha visto — se aproximaram e o seguraram, e todos começaram a andar na direção do carro funerário.
Quando mamãe, papai e eu entramos no carro, falei:
— Não quero ir. Estou cansada.
— Hazel — mamãe disse.
— Mãe, não vai ter lugar para sentar, vai durar horas e eu estou exausta.
— Hazel, nós temos que ir pelo Sr. e pela Sra. Waters — mamãe argumentou.
— É só que… — falei.
Eu me senti muito pequena no banco traseiro do carro, por algum motivo. Eu meio que queria ser pequena. Queria ter seis anos ou coisa parecida.
— Tá bem — falei.
Fiquei só olhando pela janela por um tempo. Eu realmente não queria ir. Não queria vê-los baixando o Gus para debaixo da terra, no local que ele havia escolhido com o pai; não queria ver os pais dele caindo de joelhos na grama úmida de orvalho e gemendo de dor, não queria ver a barriga alcoólatra do Peter Van Houten estufada no terno de linho, não queria chorar na frente de um monte de gente, não queria jogar um bocado de terra na sepultura dele, não queria que meus pais tivessem que ficar ali debaixo daquele céu azul e límpido com a luminosidade do entardecer e sua certa obliquidade, pensando que chegaria o dia deles, o da filha deles, do meu lote, do meu caixão e da minha terra.
Mas fiz tudo isso. Tudo isso e muito mais, porque mamãe e papai achavam que devíamos.
* * *

Assim que terminou, o Van Houten andou até onde eu estava, colocou a mão gorda no meu ombro e disse:
— Posso pegar uma carona com você? Deixei meu carro alugado lá no pé da ladeira.
Dei de ombros e ele abriu a porta de trás na mesma hora em que meu pai destrancou o carro.
Lá dentro, ele se inclinou entre os bancos da frente e disse:
— Peter Van Houten: Romancista Emérito e Desapontador Semiprofissional.
Meus pais se apresentaram. Ele os cumprimentou com um aperto de mão. Eu estava bastante surpresa pelo fato de o Peter Van Houten ter
voado meio mundo para comparecer a um enterro.
— Como é que você…. — comecei, mas ele me cortou.
— Utilizei sua Internet infernal para acompanhar o obituário de Indianápolis. — Ele colocou a mão dentro do terno de linho e tirou de lá uma garrafa de uísque de 750 ml.
— E simplesmente comprou uma passagem de avião e…
Ele me interrompeu de novo enquanto desenroscava a tampa.
— Paguei 15 mil por uma passagem de primeira classe, mas sou suficientemente capitalizado para me dar a esses luxos. E as bebidas no voo são de graça. Dependendo da sua ambição, dá quase para ficar no zero a zero.
O Van Houten deu uma golada no uísque e depois chegou o corpo para a frente, a fim de oferecê-lo ao meu pai, que reagiu dizendo:
— Ah, não, obrigado.
Em seguida, o Van Houten fez um gesto com a garrafa na minha direção. Eu a segurei.
— Hazel — minha mãe disse, mas eu desenrosquei a tampa e bebi um pouco. Aquilo fez meu estômago se sentir como meus pulmões.
Entreguei a garrafa de volta para o Van Houten, que entornou um bocado para dentro e falou:
— Então. Omnis cellula e cellula.
— Hein?
— Seu namorado Waters e eu nos correspondemos um pouquinho, e em sua última…
— Peraí, você lê cartas de fãs agora?
— Não, ele mandou a carta para a minha casa, e não através do meu editor. E eu não poderia chamá-lo de fã. Ele me desprezava. Mas, de qualquer forma, ele insistiu muito no fato de que eu seria absolvido de meu mau comportamento se comparecesse ao enterro dele e dissesse a você o que acontece com a mãe da Anna. Então, aqui estou, e eis sua resposta: Omnis cellula e cellula.
— O quê? — perguntei de novo.
— Omnis cellula e cellula — ele falou mais uma vez. — Toda célula
procede de outra célula. Toda célula nasce de uma que a antecede, que se formou a partir de uma anterior. A vida procede da vida. Vida gera vida gera vida gera vida gera vida.
Chegamos ao pé da ladeira.
— Tá. Então tá — falei.
Eu não estava com disposição para aturar aquilo. O Peter Van Houten não ia desviar todas as atenções para ele no enterro do Gus. Eu não o deixaria fazer isso.
— Obrigada — falei. — Bem, acho que já chegamos à base da ladeira.
— Você não quer ouvir uma explicação para isso? — ele perguntou.
— Não. Estou satisfeita. O que eu acho é que você é um alcoólatra patético que fala coisas difíceis para chamar a atenção como se fosse um garoto de onze anos precoce, e eu sinto muita pena de você. Mas, pois é, não, você não é mais o cara que escreveu Uma aflição imperial, por isso não poderia escrever a continuação dele mesmo se quisesse. Mas obrigada, mesmo assim. Tenha uma vida excelente.
— Mas…
— Obrigada pelo goró — falei. — Agora saia do carro.
Ele estava com aquela expressão de criança sendo repreendida. O papai havia parado o carro e nós ficamos ali parados abaixo do túmulo do Gus por um minuto até que o Van Houten abriu a porta e, finalmente em silêncio, saiu.
Enquanto nos afastávamos com o carro, olhei pela janela traseira e o vi dar um gole na bebida e levantar a garrafa na minha direção, como se estivesse brindando a mim. Os olhos dele estavam muito tristes. Tive um pouco de pena, para ser sincera.
* * *

Por fim, chegamos de volta à nossa casa perto das seis, e eu estava exausta. Só queria dormir, mas mamãe me fez comer um pouco de macarrão com queijo. Pelo menos ela deixou que eu comesse na cama. Dormi algumas horas com o BiPAP. Acordar foi um horror, porque, por um momento de
desorientação, tive a sensação de que tudo estava bem, mas logo depois me senti sendo esmagada de novo. Mamãe me tirou do BiPAP, eu me conectei a um cilindro portátil e segui aos trancos e barrancos até o meu banheiro para escovar os dentes.
Ao me olhar no espelho enquanto escovava os dentes, fiquei pensando que existiam dois tipos de adultos: os Peter Van Houtens — criaturas desprezíveis que varriam a Terra à procura de algo a que magoar, e pessoas como meus pais, que andavam de um lado para outro como zumbis, fazendo o que quer que tivessem de fazer para continuar andando de um lado para outro.
Nenhum desses futuros me pareceu particularmente almejável. Eu me sentia como se já tivesse visto tudo o que há de mais puro e bom no mundo e começava a suspeitar de que, mesmo se a morte não tivesse atrapalhado o andar da carruagem, o tipo de amor que eu e o Augustus compartilhamos não teria durado. Assim a aurora se transforma em dia, o poeta escreveu. Nada que é dourado fica. Alguém bateu na porta do banheiro.
— Está ocupado — falei.
— Hazel — meu pai disse. — Posso entrar?
Não respondi, mas depois de um tempo destranquei a porta. E me sentei no vaso sanitário com a tampa fechada. Por que o ato de respirar precisava ser tão trabalhoso? Papai se ajoelhou ao meu lado. Ele segurou minha cabeça, puxou-a até encostar no ombro dele, e disse:
— Sinto muito pela morte do Gus.
Eu me senti meio que sufocada pela camisa de malha dele, mas a sensação de ser segurada com tanta intensidade era boa demais, aninhada no cheiro familiar do meu pai. Era quase como se ele estivesse com raiva ou coisa assim, e gostei disso, porque eu também estava.
— É tudo uma grande palhaçada — ele disse. — A coisa toda. Uma taxa de sobrevivência de oitenta por cento e ele está nos vinte por cento? Palhaçada. Ele era um garoto tão brilhante! É uma palhaçada. Odeio isso. Mas com certeza foi um privilégio poder amar o Gus, não foi?
Fiz que sim com a cabeça, encostada na camisa dele.
— Isso lhe dá uma ideia de como me sinto em relação a você — ele disse.
Meu velho e amado pai. Sempre sabia a coisa certa a dizer.

3 comentários:

  1. Óh meu Deus.... alguem ja tinha me falado q ele morria, mas ainda assim li com a esperança de q teria um final menos trágico q outros romances incríveis e emocionantes, tais como Tristão e Isolda ou Romeu e Julieta... elas, acredito q só tiveram tanto sucesso pq elas sao o mais proximo da realidade... afinal n temos um "felizes para sempre" pq a vida sempre arruma uma forma de levar e acabar com tudo aquilo q esperávamos ser eterno!!! Pq mesmo naqueles casamentos q duram mais de 50 anos, a dura realidade n se dar por satisfeita e sempre arranja uma forma de ir matando alguem ou os dois juntos!!! Amores assim são raros, mas me consolo por existirem, afinal, assim como tive esperanças de q o final seria outro, mesmo sabendo de q estava equivocada, é a mesmla em q sinto em relação a vida!
    Laura Cibelle.

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  2. muito emocionante este capitulo amooo *A culpa é das estrelas*************dany

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