segunda-feira, 4 de março de 2013

Capítulo 7 - O Menino do Pijama Listrado

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COMO A MÃE LEVOU O CRÉDITO POR ALGO QUE NÃO FEZ


Várias semanas depois de Bruno ter chegado a Haja-Vista com sua família e sem nenhuma perspectiva de uma visita de Karl, Daniel ou Martin no horizonte, ele decidiu que era melhor inventar alguma maneira de se divertir, ou então acabaria enlouquecendo aos poucos.
Bruno conhecera apenas uma pessoa que ele considerava louca, e era herr Roller, um homem mais ou menos da idade de seu pai, que morava na esquina do seu quarteirão da casa velha em Berlim. Era freqüentemente visto na rua andando para lá e para cá a qualquer hora do dia ou da noite, discutindo sozinho, exaltado. Às vezes, no meio dessas discussões, a disputa saída do controle e o homem tentava atingir a sombra que ele próprio projetava na parede. De tempos em tempos herr Roller lutava com tamanha fúria que os punhos sangravam de tanto bater contra as paredes de tijolo, e então ele caía de joelhos, chorando alto e batendo as mãos contra a cabeça. Em algumas ocasiões Bruno o ouvira proferindo aquelas palavras que ele próprio não podia usar e, nessas vezes, tinha que se controlar para não rir.
    “Não ria do pobre herr Roller”, dissera-lhe a mãe numa tarde em que ele relatara sua última aventura. “Você não faz idéia do que ele passou nessa vida.”
    “Ele é louco”, disse Bruno, descrevendo com o dedo círculos ao lado da cabeça e assoviando para indicar quão louco ele achava ser o homem. “Outro dia ele se aproximou de um gato e o convidou para tomar o chá da tarde.”
    “E o que disse o gato?”, perguntou Gretel, que estava preparando um sanduíche na cozinha.
    “Nada”, explicou Bruno. “Era um gato.”
    “Estou falando sério”, insistiu a mãe. “Franz era um jovem maravilhoso – eu o conheci quando ainda era uma garotinha. Era gentil e atencioso e atravessava o salão de dança como se fosse Fred Astaire. Mas sofreu um terrível ferimento durante a Grande Guerra, um ferimento na cabeça, e é por isso que age assim agora. Não é motivo de piada. Vocês não fazem idéia do que passaram os jovens daquela época. Não imaginam o sofrimento dele.”
    Bruno tinha, então, apenas seis anos e não sabia ao certo a que a mãe estava se referindo. “Foi há muitos anos”, explicou ela quando ele perguntou a respeito. “Antes de você nascer. Franz era um dos jovens que lutaram por nós nas trincheiras. Seu pai o conhecia muito bem naquela época; acredito que eles serviram juntos.”
    “E o que aconteceu com ele?”, perguntou Bruno.
    “Não importa”, disse a mãe. “A guerra não é um assunto digno de conversa. Temo que em breve passaremos tempo demais conversando sobre a guerra.”
    Aquilo tudo ocorrera três anos antes de todos eles chegarem a Haja-Vista, e Bruno não havia pensado muito em herr Roller nesse ínterim, mas de repente ele se convenceu de que, se não tomasse alguma atitude, se não fizesse alguma coisa que lhe ocupasse a mente, então, antes que pudesse perceber, acabaria igualmente vagando pelas ruas e lutando consigo mesmo e convidando animais domésticos para ocasiões sociais.
    Para manter-se distraído, Bruno passou uma longa manhã e a tarde de um sábado criando para si uma nova diversão. A certa distância da casa – do lado de Gretel e impossível de se ver da janela de seu próprio quarto – havia um grande carvalho, de tronco bastante alentado. Uma árvore alta, de galhos robustos, fortes o suficiente para suportar um menino pequeno. Parecia tão velha que Bruno estava certo de que fora plantada em algum momento da baixa Idade Média, um período que ele estudara há pouco tempo e descobrira ser muito interessante – em especial as partes que falavam de cavaleiros que saíam para terras desconhecidas em busca de aventuras e desvendavam mistérios curiosos durante o processo.
    Bruno precisava apenas de duas coisas para criar seu divertimento: um pedaço de corda e um pneu. A corda foi bastante fácil de encontrar, pois havia rolos no porão da casa e não demorou para que ele fizesse algo extremamente perigoso: encontrando uma faca afiada, cortou tantos pedaços de corda julgou serem necessários. Levou-os até o carvalho e deixou-os no chão para utilizá-los futuramente. O pneu já era outra história.
    Naquela manhã em particular, nem a mãe nem o pai estavam em casa. A mãe saíra cedo para tomar o trem até uma cidade próxima e passaria o dia respirando outros ares, enquanto o pai fora visto pela última vez indo na direção das cabanas e das pessoas que ficavam à distância, do outro lado da janela de Bruno. Mas, como de costume, havia muitos caminhões e jipes dos soldados estacionados nas proximidades da casa, e, embora ele soubesse que seria impossível roubar um pneu de qualquer um deles, existia sempre a possibilidade de encontrar um estepe em algum lugar.
    Quando estava saindo, viu Gretel conversando com o tenente Kotler e, sem grande entusiasmo, decidiu que seria ele a pessoa certa a quem pedir o favor. O tenente Kotler era o jovem oficial que Bruno vira durante seu primeiro dia em Haja-Vista, o soldado que aparecera no andar de cima da casa e o encarara por um instante antes de acenar com a cabeça e seguir caminho. Bruno o havia visto em muitas ocasiões desde então – ele entrava e saía da casa como se fosse o dono do lugar, e parecia óbvio que o escritório do pai não era proibido para ele -, porém os dois não haviam conversado muito. Bruno não sabia ao certo por quê, mas sabia que não gostava do tenente Kotler. Havia uma atmosfera ao redor dele que fazia com que o menino sentisse frio e tivesse vontade de vestir um macacão. Ainda assim, não havia mais a quem pedir e então marchou na direção deles para dizer oi, reunindo toda a confiança de que era capaz.
    Na maioria dos dias o jovem tenente tinha um aspecto muito vistoso, desfilando por ali num uniforme que parecia ter sido passado enquanto ele o vestia. As botas pretas sempre reluziam de tão polidas e o cabelo loiro era repartido de lado e mantido perfeitamente no lugar por alguma coisa que destacava as marcas do pente, parecendo um campo recém-arado. Ele também usava tanta loção pós-barba que tornava possível farejar sua aproximação a uma distância considerável. Bruno aprendeu a evitar encontrá-lo no sentido contrário ao vento, ou acabaria arriscando-se a desmaiar por causa do cheiro.
    Naquela manhã em particular, entretanto, por ser sábado e por causa do sol intenso, ele não estava tão impecavelmente arrumado. Ao invés disso, vestia um paletó branco sobre as calças e o cabelo pendia sobre a testa, exausto. Os braços eram surpreendentemente bronzeados e tinham o tipo de músculos que Bruno desejava para si. Ele parecia tão jovem naquele dia que Bruno até ficou surpreso; na verdade ele o fazia lembrar dos meninos mais velhos da escola, aqueles que sempre evitava. O tenente Kotler estava envolvido numa conversa com Gretel, e o quer que estivesse dizendo devia ser irresistivelmente engraçado, pois ela ria alto e enrolava o cabelo ao redor dos dedos, formando anéis.
    “Olá”, disse Bruno ao se aproximar deles, e Gretel lançou-lhe um olhar irritado.
    “O que você quer?”, perguntou ela.
    “Eu não quero nada”, devolveu Bruno, fuzilando-a com o olhar. “Só vim dizer oi.”
    “Por favor, desculpe o meu irmão mais novo, Kurt”, disse Gretel ao tenente Kotler. “Sabe como é, ele só tem nove anos.”
    “Bom dia, homenzinho”, disse Kotler, estendendo a mão e – para desgosto do menino – passando-a pelo cabelo de Bruno, um gesto que o deixou com vontade de empurrá-lo no chão e saltar sobre sua cabeça. “E qual motivo o tira da cama tão cedo numa manhã de sábado?”
    “Não tem nada de ‘tão cedo’”, disse Bruno. “São quase dez horas.”
    O tenente Kotler deu de ombros. “Quando eu tinha a sua idade, minha mãe não conseguia me tirar da cama antes da hora do almoço. Ela dizia que eu jamais cresceria e ficaria forte, se passasse a vida toda dormindo.”
    “Bem, ela parece ter se enganado completamente, não?”, Gretel deu um sorriso afetado. Bruno olhou enojado para ela. A menina fazia uma voz de boba que dava a impressão de que ela não tinha nada da cabeça. Não havia nada que Bruno quisesse mais do que deixar os dois para trás sem participar da conversa deles, mas não tinha escolha, a não ser priorizar os seus interesses e pedir ao tenente Kotler o impensável. Um favor.
    “Eu imaginava se poderia lhe pedir um favor”, disse Bruno.
    “Pode pedir”, disse o tenente Kotler, fazendo Gretel rir de novo, embora isso não fosse especialmente engraçado.
    “Eu queria saber se não há algum pneu estepe sobrando”, prosseguiu Bruno. “Quem sabe de um dos jipes. Ou de um dos caminhões. Algum que vocês não estejam usando.”
    “O único pneu que eu vi sobrando por aqui nos últimos tempos pertence ao sargento Hoffschneider, e ele o traz ao redor da cintura”, disse o tenente Kotler, os lábios assumindo uma forma parecida com um sorriso. Para Bruno aquilo não fazia o menor sentido, mas parecia divertir tanto Gretel que ela estava quase dançando.
    “Bem, ele está usando o pneu?”, perguntou Bruno.
    “O sargento Hoffschneider?”, perguntou o tenente Kotler. “Temo que sim. Ele é muito apegado ao seu estepe sobressalente.”
    “Chega, Kurt”, disse Gretel, secando os olhos. “Ele não entende. Só tem nove amos.”
    “Dá para você ficar quieta, por favor?”, gritou Bruno irritado, encarando a irmã. Já era ruim o bastante ter que vir ate o tenente Kotler pedir-lhe um favor, mas ficava ainda pior com a irmã provocando-o durante a história toda. “Você também só tem doze anos”, acrescentou ele. “Então pare de fingir que é mais velha.”
    “Eu tenho quase treze anos, Kurt”, retrucou ela, sem rir, o rosto congelado de pavor. “Farei treze em poucas semanas. Serei uma adolescente. Como você.”
    O tenente Kotler sorriu e acenou com a cabeça, mas não disse nada. Bruno voltou os olhos para ele. Se fosse qualquer outro adulto ali na sua frente, ele teria girado os olhos sugerindo que ambos sabiam o quanto as meninas eram bobas, e as irmãs, ainda mais ridículas. Porém não se tratava de qualquer outro adulto. Era o tenente Kotler.
    “Enfim”, disse Bruno, ignorando o olhar de ódio que Gretel lhe lançava, “além desse pneu, há mais algum lugar onde eu possa encontrar um estepe sobrando?”
    “É claro”, disse o tenente Kotler, que havia parado de sorrir e parecia subitamente entediado. “Mas o que você vai fazer com o pneu afinal?”
    “Eu pensei em fazer um balanço”, disse Bruno. “Sabe, com um pneu e um pouco de corda amarrada aos galhos de uma árvore.”
    “É claro” disse o tenente Kotler, acenando a cabeça com ar de sabedoria, como se tais coisas fossem apenas memórias distantes agora, ainda que, conforme Gretel dissera, ele próprio não passasse de um adolescente. “Sim, eu mesmo fiz muitos balanços quando era criança. Meus amigos e eu passamos muitas tardes felizes brincando assim.”   
    Bruno ficou estupefato ao perceber que havia algo em comum entre eles (e ainda mais surpreso em saber que o tenente Kotler já tivera amigos na vida). “O que me diz?”, ele perguntou. “Será que tem algum por aí?”
    O tenente Kotler olhou para ele e pareceu estar pensando na resposta, como se não soubesse se iria lhe dar uma resposta direta ou se tentaria irritá-lo como costumava fazer. Mas então ele viu Pavel – o velho que vinha todas as tardes ajudar a descascar os legumes na cozinha antes de vestir o paletó branco e servi-los à mesa – caminhando na direção da casa, e isso pareceu dar-lhe clareza quanto ao que fazer.
    “Ei, você!”, gritou ele, acrescentando, então, uma palavra que Bruno não entende. “Venha cá, seu...” Ele disse a tal palavra novamente, e alguma coisa no tom rude com que a entoava fez Bruno se sentir envergonhado e desviar os olhos, não querendo tomar parte no que estava acontecendo.
    Pavel veio na direção deles e Kotler falou-lhe com insolência, apesar de ser jovem o bastante para ser seu neto. “Leve este homenzinho até o depósito atrás da casa principal. Enfileirados junto à parede, estão alguns pneus velhos. Ele escolherá um deles, e você o carregará para onde quer que ele lhe peça, entendido?”
    Pavel segurou o boné nas mãos diante de si e acenou com a cabeça, fazendo-a abaixar ainda mais. “Sim, senhor”, disse em voz baixa, tão baixa que era como se não tivesse dito nada.
    “E depois, quando voltar para a cozinha, lave essas mãos antes de tocar na comida, seu imundo...” O tenente Kotler repetiu a palavra que já tinha usado duas outras vezes e cuspiu um pouco enquanto falava. Bruno procurou com o olhar a irmã, que estivera maravilhada observando os raios do sol refletidos no cabelo do tenente Kotler, mas agora, como ele, parecia bastante incomodada com o que acontecera. Nenhum dos dois havia conversado com Pavel antes, mas sabiam que ele era um bom servente, e os bons serventes, segundo o pai, não nasciam em árvores.
    “Pode ir, então”, disse o tenente Kotler, e Pavel voltou-se indicando o caminho até o depósito, seguido por Bruno, que de tempos em tempos olhava para trás na direção de sua irmã e do jovem soldado e sentia um grande ímpeto de voltar e tirar Gretel de lá, apesar de ela ser irritante e egocêntrica e desagradável com ele na maioria das vezes. Esse era o trabalho dela, afinal. Era a irmã dele. Mas ele detestava a idéia de deixá-la a sós com um homem como o tenente Kotler. Não havia outra maneira de dizê-lo: aquele sujeito era absolutamente desprezível.

    O acidente aconteceu algumas horas mais tarde, depois que Bruno havia encontrado o pneu adequado, e Pavel o arrastara até o grande carvalho que ficava do lado do quarto de Gretel, e depois que Bruno subiu e desceu e subiu e desceu e subiu e desceu pelo tronco para amarar as cordas bem apertadas ao redor dos galhos e do próprio pneu. Até então, a operação tinha sido um estrondoso sucesso. Ele já havia construído um desses antes, mas naquela ocasião tivera a ajuda de Karl e Daniel e Martin. Desta vez ele estava fazendo tudo sozinho, o que tornava o trabalho certamente mais complicado. E ainda assim ele conseguiu, e em poucas horas estava contente, instalado no centro do pneu e balançando para a frente e para trás como se não tivesse uma única preocupação na vida, embora estivesse ignorando o fato de que aquele era um dos balanços mais desconfortáveis em que já estivera.
    Bruno se deitou atravessado no centro do pneu e usou os pés para ganhar impulso a partir do chão. Cada vez que o balanço recuava, erguia-se no ar e quase atingia o tronco da árvore, próximo o suficiente para usar os pés a fim de dar novo impulso, subindo cada vez mais alto e mais rápido a cada balançada. Esse procedimento funcionou muito bem, até que ele escorregou um pouco do pneu, bem na hora em que com os pés dava impulso na árvore e, antes que ele percebesse, seu corpo voltou-se para dentro, e Bruno caiu, com um pé ainda dentro do pneu, enquanto aterrissava de cara contra o chão, provocando um ruído alto e surdo.
    Tudo escureceu por um momento e depois retomou o foco. Ele se sentou no chão, bem na hora em que o pneu balançava de volta, atingindo-o na cabeça, o que o fez soltar um gemido e sair do caminho. Quando se levantou, percebeu que o braço e a perna estavam ambos bastante doloridos, pois caíra pesadamente sobre eles, mas não a ponto de ele pensar tê-los quebrado. Inspecionou a mão e viu que estava coberta de arranhões e, quando olhou para o cotovelo, viu que havia nele um belo corte. A perna era o que mais incomodava e, quando olhou para o joelho logo abaixo de onde terminavam as calças curtas, havia ali um enorme talho que parecia estar apenas esperando que ele olhasse, pois, assim que toda a atenção de Bruno foi focalizada no ferimento, este começou a sangrar bastante.
    “Oh, céus”, disse Bruno em voz alta olhando para a ferida sem saber o que fazer a seguir. Não precisou ficar indeciso durante muito tempo, uma vez que havia construído o balanço no mesmo lado da casa em que ficava a cozinha, e Pavel, o servente que o havia ajudado a encontrar o pneu, estivera à janela descascando os legumes e viu o acidente acontecer. Quando Bruno olhou para cima de novo, viu Pavel vindo rapidamente em sua direção e, só quando ele chegou, Bruno ficou seguro o bastante para deixar a sensação de embriaguez que o rondava dominá-lo por completo. Ele chegou a desabar, mas desta vez não caiu no chão, pois Pavel o pegou no colo.
    “Não sei o que aconteceu”, disse o menino. “Não parecia ser perigoso.”
    “Você estava balançando muito alto”, disse Pavel numa voz baixa que imediatamente transmitiu a Bruno uma grande segurança. “Eu vi tudo. Achei que a qualquer momento lhe aconteceria um imprevisto.”
    “E aconteceu”, disse Bruno.
    “Certamente aconteceu.”
    Pavel carregou-o pela grama de volta a casa. Levou-o até a cozinha e o acomodou numa das cadeiras de madeira.
    “Onde está minha mãe?”, perguntou Bruno, procurando a primeira pessoa a quem ele buscava quando sofria um acidente.
    “Sua mãe ainda não voltou, infelizmente”, disse Pavel, ajoelhando-se no chão diante dele e examinando seu joelho. “Sou o único que está aqui.”
    “O que vai acontecer comigo, então?”, perguntou Bruno, sentindo o pânico crescer dentro de si, uma emoção que poderia levá-lo às lágrimas. “É capaz de eu sangrar até a morte.”
    Pavel sorriu gentilmente e balançou a cabeça. “Você não vai sangrar até a morte”, disse o servente, puxando um banco e acomodando sobre ele a perna de Bruno. “Fique parado um instante. Há um estojo de primeiros socorros bem ali.”
    Bruno observou-o se movimentar pela cozinha, procurar um estojo verde de primeiros socorros debaixo de uma cômoda, trazê-lo e encher uma pequena tigela com água, testando-a antes com a ponta dos dedos para certificar-se de que não estava fria demais.
    “Terei de ir ao hospital?”, perguntou Bruno.
    “Não, não”, disse Pavel ao retomar a posição anterior, de joelhos, mergulhando um pano seco na tigela e passando-o delicadamente sobre o joelho de Bruno, o que o fez encolher-se de dor, apesar de não doer tanto assim. “É apenas um pequeno corte. Nem precisará de pontos.”
    Bruno franziu o cenho e mordeu os lábios nervosamente, enquanto Pavel limpava o sangue da ferida; depois ele pressionou contra ela outro pano, com força, durante alguns minutos. Quando o retirou, com todo o cuidado, o sangramento havia estancado, e ele sacou do estojo de primeiros socorros um pequeno frasco que continha um líquido verde, o qual borrifou sobre a ferida, coisa que doeu consideravelmente e fez Bruno dizer “Ai” sucessivas vezes.
    “Não dói tanto assim”, disse Pavel numa voz gentil e delicada. “Não torne as coisas piores, pensando que dói mais do que você realmente está sentindo.”
    De alguma maneira isso fez sentido para Bruno e ele resistiu ao ímpeto de dizer “Ai” de novo. Quando Pavel terminou de aplicar o líquido verde, tirou do estojo de primeiros socorros uma bandagem e grudou-a sobre o corte.
    “Pronto”, disse ele. “Bem melhor agora, não?”
    Bruno acenou com a cabeça e envergonhou-se um pouco por não ter agido com tanta coragem quanto gostaria. “Obrigado”, disse ele.
    “Não foi nada”, disse Pavel. “Agora você precisa ficar aí sentado um pouco, antes de sair andando novamente, está bem? Deixe a ferida repousar. E não chegue perto daquele balanço outra vez, pelo menos hoje.”
    Bruno concordou e manteve a perna estendida sobre o banquinho, enquanto Pavel foi até a pia lavar as mãos cuidadosamente, limpando até sob as unhas com uma escova de arame, antes de secá-las e voltar para os legumes.
    “Você dirá à mamãe o que aconteceu?”, perguntou Bruno, que havia passado os últimos minutos imaginando se seria considerado um herói, por sofrer um acidente, ou um vilão, por ter construído uma armadilha mortal.
    “Acho que ela perceberá tudo sozinha”, disse Pavel, que trouxe as cenouras até a mesa e sentou-se de frente para Bruno, enquanto as descascava sobre um jornal velho.
    “É, acho que sim”, disse Bruno. “Talvez ela ache melhor me levar ao médico.”
    “Acho que não”, disse Pavel em voz baixa.
    “Nunca se sabe”, disse Bruno, que não queria ver reduzida tão facilmente a importância de seu acidente. (Afinal, era a coisa mais emocionante que havia lhe acontecido desde que chegara lá.) “Pode ser pior do que parece.”
    “Não é”, disse Pavel, que mal parecia estar escutando o que Bruno falava, as cenouras tomando toda a sua atenção.
    “E como você sabe?”, perguntou rapidamente Bruno, irritado agora, apesar de aquele ser o mesmo homem que o resgatara do chão, o trouxera para casa e cuidara dele. “Você não é médico.”
    Pavel parou de descascar as cenouras por um instante e olhou para Bruno do outro lado da mesa, a cabeça baixa, erguendo os olhos, como se estivesse pensando no que responder. Ele suspirou e pareceu ponderar a questão por um longo tempo antes de dizer: “Sou, sim.”
    Bruno encarou-o, surpreso. Aquilo não fazia sentido para ele. “Mas você é um servente”, disse ele lentamente. “E você descasca os legumes para o jantar. Como pode ser também um médico?”
    “Jovem rapaz”, disse Pavel (e Bruno gostou da cortesia de ele o chamar de ‘jovem rapaz’, e não de ‘homenzinho’, como fazia o tenente Kotler), “eu sou, de fato, médico. Só porque um homem olha para o céu à noite, isso não faz dele um astrônomo, sabia?”
    Bruno não fazia idéia do que Pavel queria dizer, mas havia algo no que ele dissera que fez o menino observá-lo atentamente pela primeira vez. Era um homem de porte pequeno, bastante magro, de dedos longos e traços angulosos. Era mais velho que o pai, porém mais novo do que o avô, o que ainda lhe conferia bastante idade, e, embora Bruno jamais o tivesse visto antes de chegar a Haja-Vista, havia algo no rosto dele que sugeria que, no passado, Pavel usara barba.
    Não mais.
    “Não entendo”, disse Bruno, querendo chegar ao fundo da questão. “Se você é médico, então por que está servindo à mesa? Por que não trabalha em algum hospital?”
    Pavel hesitou por um longo tempo antes de responder, durante o qual Bruno nada disse. Ele não sabia ao certo por quê, mas sentiu que o mais educado seria esperar até que Pavel estivesse pronto para responder.
    “Antes de vir para cá, eu praticava a medicina”, disse afinal.
    “Praticava?”, perguntou Bruno, que não estava familiarizado como termo. “Você não era bom, então?”
    Pavel sorriu. “Eu era muito bom”, disse ele. “Sempre quis ser médico, sabe? Desde quando era um menino pequeno. Desde que tinha a sua idade.”
    “Eu quero ser um explorador”, disse Bruno rapidamente.
    “Desejo-lhe sorte”, disse Pavel.
    “Obrigado.”
    “Já descobriu alguma coisa?”
    “Lá na casa de Berlim havia muita exploração para se fazer”, relembrou Bruno. “Mas é porque era uma casa muito grande, maior do que você poderia imaginar, então havia muitos lugares para serem explorados. Mas aqui é diferente.”
    “Tudo aqui é diferente”, concordou Pavel.
    “Quando você chegou a Haja- Vista?”, perguntou Bruno.
    Pavel largou as cenouras e o descascador por um momento e pensou a respeito. “Acho que sempre estive aqui”, disse ele afinal, em voz baixa.
    “Você cresceu aqui?”
    “Não”, disse Pavel, balançando a cabeça. “Não cresci aqui.”
    “Mas você acabou de dizer que...”
    Antes que pudesse prosseguiu, a voz da mãe fez-se ouvir do lado de fora. Assim que a ouviu, Pavel saltou rapidamente da cadeira e voltou para a pia com as cenouras e o descascador e o jornal cheio de cascas, dando as costas a Bruno, abaixando a cabeça e emudecendo.
    “Meu Deus, o que aconteceu com você?”, perguntou a mãe ao aparecer na cozinha, inclinando-se para examinar o curativo que cobria o corte de Bruno.
    “Eu fiz um balanço, mas caí dele”, explicou Bruno. “E depois o balanço me atingiu na cabeça, e eu quase desmaiei, mas Pavel veio me ajudar, e me trouxe para casa, e limpou meus machucados, e fez um curativo em mim, que doeu muito, mas eu não chorei. Não chorei nem uma lágrima, não é mesmo, Pavel?”
    Pavel voltou o corpo levemente na direção deles, mas não ergueu a cabeça. “A ferida está limpa”, disse em voz baixa, sem responder à pergunta de Bruno. “Não há com o que se preocupar.”
    “Vá para o seu quarto, Bruno”, disse a mãe, que demonstrava claramente seu desagrado.
    “Mas eu...”
   “Não discuta comigo – vá para o seu quarto!”, insistiu ela, e Bruno desceu da cadeira, jogando o peso sobre o que decidiu chamar de perna ruim, e sentiu um pouco de dor. Ele se voltou e saiu da cozinha, mas ainda pôde ouvir a mãe agradecendo a Pavel, enquanto caminhava na direção das escadas, o que deixou Bruno feliz porque era óbvio que, se não fosse por causa de Pavel, ele teria sangrado até a morte.
    Ele ouviu uma última coisa antes de subir as escadas: a última frase que a mãe disse ao servente que afirmava ser médico.
    “Se o comandante perguntar, diremos que fui eu quem cuidou do Bruno.”
    O que pareceu a Bruno uma coisa terrivelmente egoísta, e uma maneira de a mãe levar o crédito por algo que não fez.

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