segunda-feira, 4 de março de 2013

Capítulo 8 - O Menino do Pijama Listrado

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POR QUE A AVÓ FOI EMBORA ABRUPTAMENTE


As duas pessoas de quem Bruno mais sentia saudades eram o avô e a avó. Eles moravam juntos num pequeno apartamento próximo às bancas de frutas e legumes, e, na época em que Bruno se mudou para Haja-Vista, o avô tinha quase setenta e três anos, o que, para os padrões do menino, fazia dele praticamente o homem mais velho do mundo. Certa tarde, Bruno calculara que, se viesse a própria vida de novo e de novo por oito vezes, ainda assim seria um ano mais novo do que o avô.
    O avô passara a vida toda cuidando de um restaurante no centro da cidade, e um  de seus empregados era o pai do amigo de Bruno, Martin, que trabalhava como chef de cozinha . Embora o avô não cozinhasse mais ou atendesse as mesas, ainda passava lá a maior parte de seus dias, sentado no bar durante as tardes, conversando com os fregueses, fazendo suas refeições à noite e lá ficando até a hora de fecha, rindo com os amigos.
    A avó jamais parecia velha em comparação às avós dos outros meninos. Na verdade, quando Bruno descobriu a idade que ela tinha – sessenta e dois –, ficou impressionado. Ela conhecera o avô quando ainda era jovem, após uma de suas apresentações, e de alguma maneira ele a convenceu a se casarem, apesar de todos os defeitos dele. O cabelo dela era comprido e ruivo, surpreendentemente parecido com o da nora, e os olhos, verdes, o que ela atribuía ao sangue irlandês disperso pela família. Bruno sempre sabia quando as festas familiares atingiam o ápice de animação, porque a avó ficava rondando o piano até que alguém se sentasse para tocar e pedisse a ela para cantar.
    “Como é?”, fazia ela, levando a mão ao peito como se a idéia de cantar já lhe tirasse o fôlego. “É uma canção o que estão pedindo? Ora, eu não poderia, imagine. Infelizmente, meu jovem, meus dias de cantoria já são coisa do passado.”
    “Cante! Cante!”, pediam todos os convivas, e, após a devida pausa – que podia chegar a dez ou doze segundos –, ela afinal cedia e se voltava para o jovem ao piano e dizia rapidamente numa voz bem-humorada:
    “La vie en rose, mi bemol maior. E tente acompanhar as mudanças.
    As festas na casa de Bruno eram sempre dominadas pela cantoria da avó, que por alguma razão parecia coincidir com o momento em que a mãe saía da área principal da festa e ia para a cozinha seguida por algumas de suas próprias amigas. O pai sempre ficava para escutar o Bruno também, pois não havia nada de ele gostasse mais do que escutar a avó se entregar à música e libertar todo o poder de sua voz, arrancando os aplausos dos convidados ao final. Além disso, La vie en rose lhe dava arrepios e fazia os cabelos da nuca ficarem em pé.
    A avó cultivava a idéia de que um dia Bruno ou Gretel pudessem seguir seus passos sobre o palco, e, em todo Natal e em toda festa de aniversário, ela inventava uma pequena peça para ser apresentada pelos três à mãe, ao pai e ao avô. Ela própria escrevia as peças e, conforme a opinião de Bruno, sempre guardava para si as melhores falas, embora ele não se importasse muito com isso. Em geral havia música em alguma parte – “É uma canção o que estão pedindo?”, perguntava ela primeiro – e uma oportunidade para Bruno fazer um truque de mágica e para Gretel dançar. A peça costumava terminar com Bruno recitando um longo poema de um dos Grandes Poetas, palavras que o menino achava muito difíceis de compreender, mas que de alguma maneira soavam mais e mais bonitas à medida que ele as lia.
    No entanto, essa não era a melhor parte dessas pequenas funções. A melhor parte era que a avó preparava um figurino para Bruno e Gretel. Não importava qual fosse o papel, não importavam quantas falas ele tivesse, se pouco numerosas em relação às da avó e da irmã, Bruno sempre acabava vestido de príncipe, ou de xeque árabe, ou até mesmo, numa ocasião, de gladiador romano. Havia coroas e, quando não havia coroas, havia lanças. E quando não havia lanças, havia chicotes e turbantes. Ninguém sabia qual seria a próxima invenção dela, mas, uma semana antes do Natal, Bruno e Gretel eram convocados até a sua casa diariamente para ensaiar.
    É claro que a última peça que eles encenaram havia terminado desastrosamente e Bruno se lembrava com tristeza daquela noite, embora ao soubesse ao certo o que havia causado a discussão.
    Cerca de uma semana antes, a casa passara por um grande frenesi, que tinha algo a ver com o fato de que o pai deveria agora ser chamado de “comandante” por Maria, Lars, o cozinheiro e o mordomo, bem como por todos os soldados que entravam e saíam de lá e usavam a casa – ao que parecia a Bruno – como se fossem os donos do lugar, e não ele. A animação já durava semanas. Primeiro vieram o Fúria e a linda mulher loira para o jantar, o que causara uma verdadeira paralisação na casa, e, depois, essa história de chamar o pai de “comandante”. A mãe dissera a Bruno para felicitar o pai, o que ele havia feito, embora, se Bruno fosse honesto consigo mesmo (o que ele sempre tentava ser), não estivesse bem certo quanto ao motivo da felicitação.
    No dia do Natal, o pai vestiu o uniforme novo, todo engomado e passado, o mesmo que ele vestia todos os dias agora, e toda a família aplaudiu quando ele apareceu assim pela primeira vez. Era mesmo algo especial. Comparado aos outros soldados que entravam e saíam da casa, o pai se destacava, e eles pareciam respeitá-lo ainda mais. A mãe foi até ele, beijou-lhe a bochecha e passou a mão pelo seu peito, comentando como era vistoso o tecido. Bruno ficou particularmente impressionado com todas as condecorações no uniforme e lhe foi permitido usar o quepe por um curto período, desde que suas mãos estivessem limpas ao tocá-lo.
    O avô ficou muito orgulhoso ao ver o filho de uniforme, mas a avó parecia ser a única que não estava impressionada. Depois de servido o jantar, e depois que ela e Gretel e Bruno tinham apresentado o seu mais novo espetáculo, ela se sentou, triste, numa das poltronas, e olhou para o filho, balançando a cabeça como se ele fosse uma grande decepção para ela.
    “Eu me pergunto – será que foi nisso que eu errei com você, Ralf?”, disse ela. “Imagino se todas aquelas performances que eu exigi de você o levaram a isso. Fantasiar-se de fantoche.”
    “Ora, mamãe”, disse o pai num tom de voz extremamente tolerante. “A senhora sabe que agora não é o momento certo.”
    “Você fica aí no seu uniforme”, prosseguiu ela, “como se isso o tornasse alguém especial. Nem se importa com o seu verdadeiro significado. O que ele representa.”
    “Nathalie, nós já conversamos sobre isso”, disse o avô, embora todos soubessem que quando a avó tinha algo a dizer, ela sempre dava um jeito de dizê-lo, não importava quão impopulares fossem suas palavras.
    “Você conversou, Mathias”, disse a avó. “Eu era simplesmente a parede a quem você dirigia suas palavras. Como sempre.”
    “Estamos numa festa, mamãe”, disse o pai, suspirando. “E é Natal. Não vamos estragar as coisas.”
    “Eu me lembro de quando começou a Grande Guerra”, disse o avô orgulhoso, olhando para o fogo e balançando a cabeça. “Eu me lembro de quando você voltou para casa dizendo que havia se alistado e eu tive certeza de que lhes aconteceria algum mal.”
    “O que aconteceu a ele foi um grande mal, Mathias”, insistiu a avó. “Olhe para ele e comprove.”
    “E olhe para você agora”, prosseguiu o avô, ignorando-a. “Fico tão orgulhoso de vê-lo promovido a uma posição de tamanho destaque. Ajudando seu país a recuperar o orgulho depois de tanto sofrimento que nos foi imposto. Os castigos muito acima e além...”
    “Céus, escute o que está dizendo!”, gritou a avó. “Não sei qual dos dois é mais tolo.”
    “Mas, Nathalie”, disse a mãe tentando acalmar um pouco os ânimos, “não acha que Ralf ficou lindo no uniforme novo?”
    “Se ficou lindo?”, perguntou a avó, inclinando-se para a frente e encarando a nora como se esta tivesse perdido o juízo. “Lindo, você disse? Menina tola! É isso que considera de importância neste mundo? Ficar linda?”
    “Eu fico lindo na minha fantasia de animador de circo?”, perguntou Bruno, que naquela noite estava fantasiado assim para a festa – a roupa vermelha e preta de um animador de circo – e ficara muito orgulhoso de si mesmo ao ver-se vestido. Assim que falou, arrependeu-se, pois todos os adultos voltaram os olhares para ele e Gretel, como se tivessem esquecido de que os dois estavam lá.
    “Crianças, lá para cima”, disse a mãe rapidamente. “Vão para os seus quartos.”
    “Mas nós não queremos ir”, protestou Gretel. “Não podemos ficar brincando aqui embaixo?”
    “Não, crianças”, insistiu ela. “Vão para o andar de cima e fechem a porta ao saírem.”
    “É só isso que interessa a vocês soldados, afinal”, disse a avó, ignorando completamente as crianças. “Ficar bonitos nos uniformes alinhados. Fantasiando-se para fazer as coisas terríveis, terríveis que vocês fazem. Eu me envergonho. Mas culpo a mim mesma, Ralf, não a você.”
    “Crianças, subam já!”, disse a mãe, batendo palma, e desta vez os dois não tiveram escolha senão obedecer.
    Mas, ao invés de subir direto para os quartos, eles fecharam a porta e sentaram-se na escada no andar de cima, tentando escutar o que os adultos diziam. Entretanto, as vozes da mãe e do pai estavam abafadas e difíceis de entender, a do avô nem se ouvia, e a da avó arrastava-se, surpreendentemente. Afinal, após alguns minutos, a porta se abriu de um só golpe, e Gretel e Bruno correram escada acima, enquanto a avó pegava o casaco que deixara pendurado na entrada.
    “É uma vergonha!”, gritou ela antes de sair. “Envergonha-me que um filho meu seja...”
    “Um patriota”, gritou o pai, que talvez jamais tivesse aprendido aquela regra sobre não interromper sua mãe.
    “Que belo patriota!”, gritou ela. “As pessoas que você recebe nesta casa para o jantar. Fico com nojo. E vê-lo nesse uniforme me dá vontade de arrancar os olhos da cara!”, acrescentou antes de sair abruptamente e bater a porta atrás de si.
    Bruno vira a avó poucas vezes desde então e não tivera chance de se despedir dela antes de vir para Haja-Vista, mas sentia muito a sua falta e decidiu escrever-lhe uma carta.
    Naquele dia ele se sentou, munido de papel e tinta, e contou a ela como estava infeliz lá e o quanto queria estar de volta a Berlim. Contou a ela sobre a casa, e o jardim, e o banco com a placa, e a cerca alta, e os postes telegráficos de madeira, e os rolos de arame farpado, e o chão duro que se estendia além deles, e as cabanas, e os pequenos prédios, e as colunas de fumaça, e os soldados, mas contou a ela principalmente sobre as pessoas que moravam lá, vestindo seus pijamas listrados e seus bonés de pano, e então contou a ela o quanto sentia saudades e concluiu a carta com “seu neto querido, Bruno”.

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