segunda-feira, 4 de março de 2013

Capítulo 9 - O Menino do Pijama Listrado

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BRUNO SE LEMBRA DE COMO GOSTAVA DE EXPLORAR


Durante um bom tempo nada mudou em Haja-Vista.
    Bruno ainda tinha que aturar a antipatia de Gretel, que não perdia a oportunidade de descontar nele seu mau-humor bastante freqüente, já que ela era um Caso Perdido.
    E ele ainda queria voltar para  casa em Berlim, embora as memórias daquele lugar estivessem começando a se desvanecer e, apesar de suas melhores intenções, já fazia semanas que ele nem sequer pensava em mandar uma carta para a avó ou para o avô, e menos ainda em sentar-se para escrever.
    Os soldados continuavam indo e vindo todos os dias da semana, fazendo reuniões no escritório do pai, no qual era Proibido Entrar em Todos os Momentos Sem Exceção. O tenente Kotler continuava andando por ali de botas pretas, como se não houvesse no mundo pessoa mais importante do que ele e, quando não estava com o pai, ficava na entrada de carros conversando com Gretel, enquanto esta ria histérica e enrolava o cabelo em torno dos dedos, ou então ficava sussurrando com a mãe nos cômodos da casa.
    Os criados continuaram lavando e varrendo e cozinhando e limpando e servindo e tirando a mesa, sempre mantendo a boca fechada, a não ser quando alguém se dirigia a eles. Maria continuava, na maior parte do tempo, arrumando e ajeitando tudo e garantindo que cada peça de roupa de Bruno que não estivesse em uso fosse guardada bem dobrada no armário. E Pavel continuava indo à casa todas as tardes para descascar as batatas e cenouras e depois punha o paletó branco e servia a mesa do jantar. (De tempos em tempos Bruno o pegava olhando para seu joelho, onde uma pequena cicatriz do acidente com o balanço se destacava, mas fora isso nunca conversavam.)
    Mas então as coisas mudaram. O pai decidiu que era hora de as crianças retomarem os estudos, e, embora Bruno achasse ridículo uma escola onde havia apenas dois alunos para ensinar, tanto a mãe como o pai concordaram em chamar um professor particular para vir a casa todos os dias e preencher suas manhãs e tardes com aulas. Algumas manhãs mais tarde, um homem chamado herr Liszt chegou pelo acesso à estrada no seu calhambeque, e era hora de voltar às aulas. Herr Liszt era um mistério para Bruno. Ainda que fosse bastante amigável a maior parte do tempo, jamais erguendo a mão para ele como fazia o antigo professor em Berlim, alguma coisa em seus olhos fazia o menino pensar que havia dentro dele uma raiva pronta para escapar.
    Herr Liszt gostava especialmente de história e geografia, enquanto Bruno preferia literatura e arte.
    “Essas coisas são inúteis”, insistia o professor. “O bom entendimento das ciências sociais é muito mais importante na nossa época.”
    “A vovó sempre nos deixa participar da encenação de peças teatrais em Berlim”, Bruno apontou.
    “Sua avó, no entanto, não era sua professora, certo?”, perguntou herr Liszt. “Ela era sua avó. E aqui eu sou o seu professor, portanto você estudará as coisas que eu considero importantes e não apenas os assuntos que são do seu interesse.”
    “Mas os livros não são importantes?”, perguntou Bruno.
    “Livros que tratam dos assuntos importantes do mundo, é claro”, explicou herr Liszt. “Mas não os livros de histórias. Não os livros que falam de coisas que jamais aconteceram. Quanto você sabe de sua própria história, jovem rapaz?” (Para seu crédito, herr Liszt referia-se a Bruno como “jovem rapaz”, assim como Pavel e ao contrário do tenente Kotler.)
    “Bem, eu sei que nasci no dia 15 de abril de 1934...”, disse Bruno.
    “Não a sua história”, interrompeu Herr Liszt. “Não estou falando de sua história pessoal. Quero dizer a história de quem você é, de onde vem. A herança de sua família. Sua terra natal.”
    Bruno franziu o cenho e parou para pensar. Ele não sabia ao certo se o pai possuía alguma terra, pois, embora a casa de Berlim fosse grande e confortável, não havia muito espaço no quintal ao redor dela. E ele já tinha idade o bastante para saber que Haja-Vista não pertencia a eles, apesar de toda a área do lugar. “Não sei muito a respeito”, ele admitiu afinal. “Mas sei bastante sobre a Idade Média. Gosto de histórias sobre cavaleiros e aventuras de exploração.”
    Herr Liszt emitiu um silvo por entre os dentes e balançou a cabeça, irritado. “Então é exatamente isso que eu vim corrigir”, disse ele numa voz sinistra. “Vim tirar da sua cabeça esses livros infantis e ensinar-lhe mais a respeito do lugar de onde você vem. Sobre os terríveis crimes cometidos contra você.”
    Bruno concordou e sentiu-se bastante satisfeito, porque presumiu que finalmente lhe seria dada alguma explicação quanto ao porquê de haverem sido todos forçados a deixar sua casa confortável e ir para aquele lugar terrível, o que provavelmente fora o maior crime jamais cometido contra ele durante sua curta vida.
    Alguns dias mais tarde, sentado sozinho em seu quarto, Bruno começou a pensar em todas as coisas que ele gostava de fazer em casa e que ainda não tivera ocasião de fazer desde que chegara a Haja-Vista. A maioria delas não era sequer possível de ser feita, já que não havia amigos com quem brincar, e não se podia pensar que Gretel se dignaria a brincar com ele. Mas havia algo que ele podia fazer sozinho e que fazia o tempo todo lá em Berlim: exploração.
    “Quando eu era criança”, disse Bruno para si mesmo, “costumava gostar de explorar. E isso ainda em Berlim, onde eu conhecia todos os lugares e sabia encontrar o que quisesse, mesmo vendado. Nunca explorei este lugar. Talvez seja hora de começar.”
    E então, antes que pudesse mudar de idéia, Bruno saltou da cama e investigou o guarda-roupa procurando pelo casaco e por um par de botas – o tipo de roupa que ele imaginava usar um verdadeiro explorador – e preparou-se para sair de casa.
    Não havia o menor sentido em explorar dentro de casa. Afinal, aquela casa não era como a de Berlim, que, como ele podia se lembrar, tinha centenas de esconderijos e cantos secretos e estranhos quartinhos, para não falar nos cinco andares, contando o porão e o pequeno quarto no topo onde ficava a janela através da qual ele só conseguia olhar se ficasse na ponta dos pés. Não, aquela casa era péssima para exploração. Se fosse explorar, tinha de ser do lado de fora.
    Já fazia meses que Bruno olhava pela janela do quarto para o jardim e para o banco com a placa, para a cerca alta e os postes telegráficos de madeira e todas as outras coisas sobre as quais ele havia contado para a avó em sua mais recente carta. E apesar de ter observado tantas vezes as pessoas, todas aquelas pessoas diferentes nos seus pijamas listrados, jamais lhe ocorrera perguntar-se do que se tratava, afinal.
    Era como se fosse completamente outra cidade, todas aquelas pessoas morando e trabalhando bem ao lado da casa em que ele vivia. E será que eram mesmo tão diferentes? Todos no campo usavam as mesmas roupas, aqueles pijamas com os bonés de pano também listrados; e todos que passavam pela sua casa (exceção feita à mãe, Gretel e a ele próprio) vestiam uniformes de variadas qualidades e graus de condecoração e quepes e capacetes com grandes braçadeiras vermelhas e negras e traziam armas e estavam sempre com o semblante terrivelmente severo, como se tudo aquilo fosse muito importante e ninguém pudesse pensar diferente.
    Qual era a diferença, exatamente?, ele se perguntou. E quem decidia quem usava os pijamas e quem usava os uniformes?
    É claro que, às vezes, os dois grupos se misturavam. Ele já vira muitas vezes as pessoas do seu lado da cerca do outro lado da cerca e, ao observá-las, ficava claro que os uniformizados estavam no comando. As pessoas de pijamas ficavam de prontidão sempre que os soldados se aproximava e às vezes caíam no chão e às vezes nem sequer se levantavam, sendo necessário carregá-las para longe.
    É curioso que eu jamais tenha me perguntado a respeito daquelas pessoas, pensou Bruno. E é curioso pensar que os soldados vão para o outro lado tantas vezes – e ele vira até mesmo o pai ir ao outro lado em diversas ocasiões -, mas as pessoas de pijama jamais eram convidadas para vir até a casa.
    Às vezes – não era freqüente, mas às vezes – alguns dos soldados ficavam para o jantar, e nessas ocasiões muitas bebidas espumantes eram servidas, e no instante em que Gretel e Bruno punham o último bocado de comida na boca, eram mandados para seus quartos, e então havia um grande barulho no andar de baixo e uma cantoria horrível também. A mãe e o pai obviamente apreciavam a companhia dos soldados – Bruno era capaz de perceber. Mas eles jamais, nem por uma vez, haviam convidado alguma das pessoas de pijamas para o jantar.
    Ao sair de casa, Bruno deu a volta e olhou para a janela de seu quarto, que, de lá de baixo, não parecia tão alta assim. Seria possível saltar dela sem se machucar muito, ele concluiu, embora não conseguisse imaginar em que circunstâncias seria capaz de tentar algo tão idiota. Talvez se a casa estivesse em chamas e ele estivesse preso do lado de dentro, mas mesmo assim parecia arriscado.
    Ele olhou para a direita o mais longe que pôde, e a cerca alta parecia seguir até o horizonte na luz do sol, perdendo-se na distância, o que o deixou feliz, pois isto significava que ele não sabia o que havia além dela e teria de andar bastante para descobrir e era esse o espírito da exploração, afinal de contas. (Havia algo de bom nos ensinamentos de herr Liszt durante as aulas de história: ele falava sobre homens como Cristóvão Colombo e Américo Vespúcio; homens com histórias tão cheias de aventuras e vidas tão interessantes que apenas confirmavam o desejo de Bruno de se tornar como eles quando crescesse.)
    Antes de sair naquela direção, entretanto, havia uma última coisa para investigar: o banco. Durante todos aqueles meses ele o observara na distância, reparando na placa e chamando-o de “o banco com a placa”, mas ainda não fazia idéia do que estava escrito nela. Olhando para a esquerda e para a direita para certificar-se de que não vinha ninguém, correu até o banco e estreitou os olhos, enquanto lia as palavras. Era apenas uma pequena placa de bronze, e Bruno leu em voz baixa o que estava escrito:
    “Entregue por ocasião da inauguração do...”, Ele hesitou. “Campo de Haja-Vista”, prosseguiu, tropeçando no nome como de costume. “Junho de 1940.”
    O menino estendeu o braço e tocou a placa por um instante, e o bronze era muito frio; então ele recolheu os dedos antes de respirar fundo e começar sua jornada. A única coisa em que Bruno procurava não pensar era que tanto a mãe como o pai já haviam lhe dito em incontáveis ocasiões que ele estava proibido de caminhar naquela direção, proibido de chegar perto da cerca ou do campo, e principalmente que a exploração estava proibida em Haja-Vista.
    Sem Exceções.

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