quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Parte 11 - O Doce Veneno do Escorpião

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Segunda, 9 
QUINTO PROGRAMA 
Cliente tosco, cavalo, mas tentou ser bacana. Definitivamente, não
rolou química, muito menos afinidade. No começo, o programa foi em clima de
putaria, mas depois ficou mecânico. Muito mecânico. Meu, eu fiquei com nojo
dele, principalmente da língua dele, e quase chorei. Juro. Daí, respirei
fundo e lembrei que quem está na chuva é para se molhar... Ele me chupou, mas
eu não consegui gozar de jeito nenhum, por causa do nojo que eu estava da
língua dele. Como ele demorou para gozar, dei um jeito de contornar a
situação: 
chupei um pouco o cara e depois fiquei de quatro. Ele gozou na minha
boceta.
Pois é, nem sempre rola de tirar prazer do trabalho. Mas algumas
coisas que a gente faz nos levam ao arrependimento. Não, não vou dar uma de
falso moralista aqui, calma. Acho que, nessa minha trajetória, mais, na minha
vida, a única coisa de que me arrependo é ter feito o bendito filme pornô. No
meu prédio também moram muitos garotos de programa e alguns atores. Eu sempre
encontrava alguns deles no elevador e já vinha aquele papinho: "Você é
bonita", "Não quer tirar umas fotos para eu levar para a produtora onde eu
faço filme?". Ouvi isso tantas vezes que acabei mandando as fotos para a tal
produtora. Eu tinha consciência de que não eram filmes "de arte". Me
chamaram, e lá fui eu.
Não foi legal. Nem um pouco legal. É tudo muito artificial, tudo
montado. Pára toda hora, o diretor pede para parar, manda cortar. Difícil
fazer alguma coisa natural desse jeito... Você não pode olhar para a câmera,
porque tem de ficar o tempo todo olhando para o bendito diretor para ver os
sinais que ele faz. Quando ele levanta a mão assim, é para mudar de posição.
De outro jeito, é para gemer. 
Transar com um monte de gente à sua volta e prestando atenção às
ordens do diretor é uma loucura.
Foi interessante porque fiquei sabendo como se faz. Não foi bacana
porque vi realmente que não é nada daquilo que a gente pensa que é...
Também não foi legal por outras razões. Eles pagam muito mal. Você
ganha pouquíssimo. Dá até vergonha de falar quanto eu ganhei porque é
miséria, mesmo. Tá bom:
foram 500 reais. Isso só acontece porque é no Brasil. Nos Estados
Unidos, é profissão.
O respeito é outro.
Sei que tudo que aconteceu na minha vida, a fama (sei, sei,
passageira), as coisas boas e ruins,
de certo modo ainda me assustam. Outro dia, eu estava andando aqui
mesmo na rua em que moro, de óculos escuros, quando um cara passou do meu
lado, encostou em mim (eu achando que era assalto) e falou: "Com licença.
Desculpe a pergunta, mas você é a Bruna Surfistinha? .
Não, não sou. Ah, então, desculpa, eu me enganei." Fiquei
supersurpresa, jamais esperava que alguém fosse me abordar na rua, me
reconhecer. 
Fiquei tão sem reação que acabei falando que não era eu. Que
bobagem...
Por outro lado, já aconteceu de eu ficar com um cara, numa troca de
casais em um swing, e ele virar depois e dizer: "Você é a Bruna Surfistinha,
não é? Eu sempre fui louco para fazer programa com você, mas agora tive de
graça". Quis matar o cara. Brincadeira. O que mais me surpreende é que as
reações das pessoas, na maioria das vezes, ao me reconhecer, é de
neutralidade, embora já tenha ouvido risinhos enquanto eu passo em algum
lugar. Mas sempre fica a dúvida: 
será que era de mim que estavam rindo, de mim que estavam falando?
Tenho a impressão que sim, mas não sei qual o motivo. Não vou ficar na
neurose por causa da vida que levo. Ficar imaginando que algum carinha está
me paquerando por saber quem eu sou. Sou uma mulher bonita. Não vou ficar
pensando: "Ah, ele me reconheceu e por isso está dando em cima".
É loucura demais. Prefiro deixar a vida me levar Às vezes, de
madrugada, vou até o prédio em que meus pais moram. Fico na calçada um
tempão. Na última vez, fui com meu namorado: meia hora ali, bebendo, enquanto
passava o filminho na minha cabeça. Eu vejo o portão e uma menina saindo
assustada, com a roupa do colégio, uma mochila com algumas roupas,
desnorteada, sem rumo - caminhando para o destino que ela escolheu. Lá de
baixo, olho as janelas de luzes apagadas no apartamento em que um dia morei.
Lembro do meu quarto clarinho, das persianas (nada de cortinas ou bichinhos
de pelúcia: tenho asma e rinite...), dos móveis da Babilândia (não queria
móveis de "adulto") e da grande bancada onde eu estudava e fazia as lições de
casa, e passava horas no meu computador ou vendo a tv. Não vou até lá
esperando um encontro casual. Pelo horário, quero mesmo é não ver ninguém.
Não estou preparada. Nem eles. Como meu pai reagiria? E minha mãe? Nós nunca
mais nos falamos. Vamos nos encontrar um dia, claro, mas vai ser planejado.
Quando eu parar de fazer programa, quero provar para eles que fiz, mas parei.
Tomara que isso facilite a volta. 
Terminada a cerveja, dou uma última passeada pela frente do prédio,
olho ao redor e vejo que muita coisa mudou. Inclusive eu. 
Hoje vejo que tudo o que vivi era uma fase pela qual eu tinha que
passar. Sem arrependimentos.  
Três anos que eram para ter acontecido assim: putaria, drogas... Se
não fosse desse jeito, longe dos meus pais, talvez eu ainda estivesse tomando
antidepressivos.
E eles, nem sei... Por que foi bom? Por vários motivos (eu sempre vejo
o lado bom das coisas). Desde o meu amadurecimento como pessoa, de aprender a
cuidar e a gostar de mim, ao aprendizado de conviver com todo tipo de gente,
de respeitar o lado de cada um. Antes, eu não respeitava ninguém. Se não
fosse garota de programa, nunca aceitaria as diferenças das pessoas. Conheci
todo tipo de gente: boas e ruins. A melhor delas foi a Gabi. Por tudo isso,
sei que fiquei menos egoísta. Penso até que, se tivesse sido mais paciente,
dado um tempo, se não tivesse saído de casa, a minha relação com meus pais um
dia ia voltar ao normal. Nada de Bruna, só Raquel.
Mas só a Bruna podia chegar a essa conclusão. Nunca a Raquel...
No ano passado, fui visitar minha avó, mãe da minha mãe, que está numa
clínica geriátrica em Sorocaba. Ela me mostrou um álbum de fotos. Entre elas,
nenhuma do meu pai. Mas havia uma de minha mãe, segurando no colo minha
sobrinha recém-nascida, que, por motivos óbvios, eu ainda não conheço. Não
sei por que, mas resolvi pegar a foto emprestada e tirar um xerox. Guardo
essa foto na minha agenda. 
De certo modo, me aproxima da minha mãe - e da maternidade. Eu penso
nos meus filhos (quero ter dois: 
um casalzinho, gêmeos, de preferência). Me imagino uma mãe mais
companheira, liberal. Sou a prova viva de que não adianta você prender filho,
proibir. Tudo bem que os meus filhos poderão sair e voltar a hora que
quiserem, desde que eu leve e busque. Ter vivido a minha vida me mostrou bem
onde está a maioria das armadilhas do mundo. Eu caí em todas elas. 
Quinta, 21 
Às vezes, paro para pensar no que fiz na minha vida, mas sei que
colherei os meus frutos, ou até que já os estou colhendo sem saber. Hoje
fiquei relembrando todo o meu passado, sem depressão; apenas lembrei com
saudades e com carinho. 
Se não fosse o meu passado, acho que não teria me tornado a pessoa que
sou, não a puta que sou, mas o meu outro lado, que poucas pessoas conhecem. É
tão bom lembrar das risadas em família, das viagens, dos colegas do colégio,
de tudo... Depois que fiquei um tempão assistindo ao "filme" do meu passado,
que passou apenas pelos pensamentos, limpei as lágrimas e levantei a cabeça.
Gosto de chorar porque me faz bem.
Quando este livro estiver lançado eu não estarei mais fazendo
programas. Não sei qual o dia exato de outubro, só sei que será antes do meu
aniversário, O presente que me darei.
Quero que os meus pais saibam e entendam que tudo o que fiz foi em
nome da minha felicidade. Para sermos felizes precisamos sempre abrir mão de
algo. Não dá para termos tudo de uma vez.
Tive a sorte de encontrar o homem da minha vida fazendo programas. Sei
que não são todas as garotas de programa que têm o mesmo final feliz.
Vou me aposentar, mas continuarei com o blog até o último dia de minha
vida. Ainda quero escrever nele que "amanhã será o meu casamento" ou que "o
meu filho nasceu ontem". E espero mais ainda que estes fatos aconteçam com o
Pedro.
O importante na vida é nunca desistir de buscar a felicidade.  

          fim 

15 comentários:

  1. nunca pensei q a historia dela fosse assim,ela largou tudo,buscou o sonho,foi uma escolha estranha,mas mesmo assim...gostei de conhecer a historia dela,foi bom ler o livro!!

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  2. Muito bom...haha
    E quando vocês irão postar o Morri para Viver, da Andressa Urach ?

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  3. Muito bom...haha
    E quando vocês irão postar o Morri para Viver, da Andressa Urach ?

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  4. Nunca imaginei que a história dela tivesse tanto sofrimento. É uma mulher incrível, sem duvidas. Adorei o livro!

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  5. isso não é um livro ...é só um relato de uma garota de programa,não é uma história,com todo respeito a profissão dela,mas o livro,a história são totalmente sem sentido!

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  6. isso não é um livro ...é só um relato de uma garota de programa,não é uma história,com todo respeito a profissão dela,mas o livro,a história são totalmente sem sentido!

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  7. Gente me desculpa meu filho que escreveu isso.eu estava lendo o livro e eu amei a história muito triste,essa vida que vc levou Bruna um grande abraço e eu fico feliz de vc ter conseguido se erguer nessa vids

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  8. Eu, particularmente, adorei. Sempre que pensamos em garota de programa vem toda uma opinião formada na cabeça, mas esquecemos que elas são pessoas normais que choram, riem, tem seus jeitos próprios, opiniões e etc. Muito bacana ver a forma em que ela levou tudo isso!

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