quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Parte 2 - O Doce Veneno do Escorpião

3 Comentários
Um desconhecido. Eu dançava sozinha quando esse menino me puxou para
um beijo. Minha primeira balada à noite. Nem perguntei seu nome. Meu primeiro
programa de "adulto".
Liberdade aos 13 anos, quase 14. Não fazia nem meia hora que eu havia
chegado. Meu primeiro beijo. Ali mesmo, do beijo passamos ao amasso, no meio
da pista. Quando eu menos esperava, ele me largou. Tudo assim, sem
sentimento, sem trocar uma palavra. Naquela noite, fiquei com outros dez
garotos diferentes. 
Não bastava um: tinham que ser vários para me satisfazer. Raquel
despertava para o sexo.
Um desconhecido. Mesmo nervosa, eu me apresento com um texto ensaiado
ali, na hora: "Sou a Bruna, faço oral, vaginal e anal". Completei dizendo
minha idade falsa, "18 anos", sem saber que nenhuma garota faz disso
marketing pessoal.
Ninguém podia saber que era meu primeiro programa. Fazia apenas meia
hora que eu havia saído da casa dos meus pais para chegar àquela nova casa.
Minha estréia aos 17 anos. Não diria àquele estranho que nunca tinha
feito sexo por dinheiro. Ele me escolheu, de cara. Eu queria sumir, sair
correndo e voltar para a casa dos meus pais. Em vez disso, subimos para o
quarto. Penso na minha mãe. Um estranho me toca e quer transar sem camisinha.
"Ela deve estar sofrendo." Não deixo ele me tocar. Depois de ele brincar de
ginecologista comigo, enfiando seu dedo e cheirando para saber se estava
"tudo bem", me penetrou com camisinha. Eu só pensava:
"Vou pegar o dinheiro desse cara e voltar para casa. Ainda dá tempo de
desistir e ir embora". Acabei fazendo seis programas naquela tarde. 
Nunca mais voltei para casa. Nunca mais vi meus pais. Bruna nasceu
para o sexo.
Pouco mais de três anos separam esses dois momentos tão distantes um
do outro. No primeiro, Raquel mudava da água para o vinho, da meiga filha
mimada para uma adolescente sem freio, mentirosa. Havia treinado muito beijo
no espelho do banheiro, na laranja, no braço, sempre confiante nas dicas das
revistas de meninas. Ao vivo, tinha sido muito melhor. No segundo, achei no
meu corpo, entre as pernas, a chave da liberdade e o meu ganha-pão, mesmo que
isso significasse mentir minha idade e colocar em prática, por cem reais o
programa, com quarenta reais de lucro para mim, o pouco que havia aprendido
em seis transas com um namoradinho sério e outro ficante.
Na pista da Kripton, em plena Vila Olímpia, a cada noite de balada eu
queria mais e mais.
Ia de saia bem curta, para facilitar as coisas para quem quisesse
sentir com as mãos o que a quase escuridão não deixava mostrar. Se não
transei bem ali, se não quis perder no meio da pista minha virgindade, não
foi por falta de oportunidade.
O prazer que experimentava ao sentir o pênis do garoto, duro por minha
causa debaixo das calças, me roçando aqui e ali, era quase irresistível.
Quase...
Abri muito zíper de garotos na pista mesmo, só para baixar sua cueca e
puxar seu pênis um pouco para fora para brincar. Não tinha a menor idéia de
como masturbar um homem, até que um deles me pediu, com todas as letras:
"Bate uma pra mim". Sem saída, disse a verdade: "Não sei". Encostados em uma
parede próxima da pista, comigo, sem graça, ouvindo seu riso sacana, ele
pacientemente pegou minha mão e me ensinou o movimento. Dali para a frente,
só não fiz isso com quem não quis. É fantástico fazer um cara gozar, sentir
prazer. Comecei a punhetar todos com quem ficava enquanto dançava. 
Ninguém à volta percebia, pois muitos estavam ocupados fazendo
exatamente a mesma coisa que eu e meu ficante da vez. Cheguei mesmo a ver
muitos casais transando de verdade nos sofás. Com os seguranças do lugar, não
havia problemas:
se pegassem um casal mais atirado ou exibicionista, pediam apenas para
maneirar.
Nunca transei na balada. Houve muitas oportunidades, mas nenhuma
coragem. Para perder a virgindade, teria que ser com alguém especial. Sou
romântica. Não que isso me impedisse de começar a deixar que os garotos me
tocassem mais intimamente. Sob a saia bem curta, abaixava um pouco minha
calcinha e, só com o contato das mãos entre minhas coxas e na minha vagina,
ficava super - molhada. Achava que aquilo era gozar. Só depois descobri que
"chegar lá" era mais, muito mais - e melhor. Aprendi que o gozo, para mim,
começa com um friozinho na barriga. Mesmo assim, não queria transar.
Cheguei muito perto de ir até o fim algumas vezes. Por duas vezes,
entrei no carro, eu e meu ficante tiramos nossas roupas, fizemos de tudo e eu
fui até onde conseguia.
E olha que já era bem longe. Na hora de transar de verdade, de ser
penetrada, ficava arrependida e com medo.
"Eu preciso ir embora."
"Agora que a gente tá no embalo?" "É que meu pai vem me pegar daqui a
pouco.
"Ele espera", dizia o outro, já com o pau duro para fora da calça e as
mãos parecendo dois polvos, cheias de dedos em cima de mim.
"Não dá."
"Mas você já tá quase pelada, já fizemos quase tudo. Só falta o
principal..."
"Vai ficar faltando, me desculpe."
Sempre arrumava uma desculpa e caía fora.
Para o garoto, mais velho e maior de idade, eu seria apenas "mais
uma". 
E eu não queria ser apenas "mais uma". Me sentiria usada. Ainda
restava um pouco de razão na minha cabeça romântica. Transar ali para nunca
mais ver o cara? Não era meu ideal de primeira vez. Sem falar no medo da dor
e do sangramento do qual falavam as revistas de adolescentes. Achava que
sangraria horrores, como uma torneirinha de sangue.
No fundo, era inexperiência mesmo. Sem querer confessar ser virgem, e
igualmente sem coragem para pedir uma camisinha, me imaginava no lugar de uma
amiga que engravidou aos 15 anos. Ela nem sequer sabia quem era o pai da
criança. Mãe, quem é o meu pai?" "Não sei, filho E eu sei bem o que
significava esse tipo de diálogo.
No meu primeiro dia na casa da Franca, a última coisa que eu queria
era que descobrissem minha falta de experiência. Cheguei lá pelas duas da
tarde, depois de ter caminhado desde o Paraíso, onde morava, deixando para
trás tudo o que tinha: mãe, pai, quarto, roupas. Carregava um fichário e a
mochila do colégio com poucas roupas e muitos biquínis para usar no meu
primeiro emprego. Perda de tempo: 
nenhuma das garotas trabalhava de biquini..
Sem roupa decente para trabalhar, as outras garotas me arrumaram umas
coisas horrorosas. Justo eu, que sempre me expressei pelo uso de marcas de
grife, que compensavam minha gordurinha e minha síndrome de patinho feio.
Tive de me conformar. Sabia que um dia ganharia meu dinheiro e compraria tudo
outra vez.
A cafetina da casa da Franca, Larissa, foi a única para quem disse uma
parte da verdade. Ela me pediu o RG, e não tive como esconder: eu só tinha 17
anos. "Não diga nada a ninguém sobre isso", ela me aconselhou.
Por mais que tentasse bancar a experiente na frente das outras
garotas, de cara dei bandeira:
"Com que nome você trabalha?", perguntou Larissa.
"Raquel", disse, sem um pingo de malícia.
"Nenhuma garota de programa usa seu nome de verdade. Aqui, vai ter de
trocar."
"Você combina com Bruna", disparou a Mari, que acabou virando uma boa
amiga.
Não me lembro por que, quando foi ou quantos anos eu tinha, mas não
esqueço que cresci com a história de ser adotada na cabeça. Quando tinha
cinco anos, perguntei à minha mãe. Diante da resposta positiva, não tive
coragem de perguntar o que significava, afinal, adoção. Levei minha dúvida
para a professora da escola, que me explicou que as pessoas adotadas foram
bebês abandonados em um lugar porque a mãe não podia ou não queria criar.
Depois disso, vem um casal e escolhe uma dessas crianças para a adoção.
"Escolhe?" Me senti um objeto. Por mais que meus pais sempre tivessem
me tratado como filha, foi difícil não me revoltar, mesmo que guardasse isso
só para mim. Pô, filho era o que nascia da barriga. Só comecei a aceitar o
contrário bem mais tarde. Talvez tarde demais.
Tentava levar tudo numa boa, pois tinha mesmo uma família. Mas sempre
vinha alguém e comentava que eu era muito diferente das minhas irmãs mais
velhas e da minha mãe. Ela é bem européia, pele clarinha, cabelos e olhos
escuros, traços delicados. A gente só se parece na altura: ela é tão baixinha
quanto eu. Às vezes, até trocávamos algumas roupas, uns casacos. Mas as
semelhanças ficavam por aí. Minhas duas irmãs, ao contrário, são iguaizinhas
à minha mãe.
Mesmo um tio meu jamais me tratou como sobrinha. Para os que não
conheciam meu pai, a desculpa era: "ela puxou a ele". Nem na sombra: ele tem
1,92 metro, é gordo, branquinho... Em alguns momentos, para me defender desse
preconceito, dessa agressão, minha mãe mentia para os desconhecidos,
inventava algo para me resguardar.
Quanta inveja eu senti das minhas amiguinhas que se pareciam com seus
pais, com sua família de verdade! A raiva ia dos meus pais biológicos para os
adotivos. Quando brigávamos, eu os chamava de tio e tia. Coitada da minha
mãe... Mas eu não tinha maturidade nem estrutura para lidar com isso sozinha.
Com sete anos, em 1991, voltamos todos para Sorocaba, local de origem
da minha família adotiva também. Ou melhor, nos mudamos para nossa chácara,
em Araçoiaba da Serra. Meu pai havia sofrido um acidente e tivera de parar de
trabalhar. Um dia, na garagem do prédio, se abaixou para pegar alguma coisa
e, quando levantou, bateu a cabeça numa viga mais baixa do teto.

3 comentários: