quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Parte 3 - O Doce Veneno do Escorpião

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Aquela pancada afetou seriamente seu cérebro, nem sei explicar como.
Só quando o vi desmaiado pela primeira vez, no meio da sala, senti o quanto
era grave. Quando meu pai viu que não tinha como continuar trabalhando, no
auge de sua carreira de Direito, se abateu, ficou muito deprimido. Foi melhor
mesmo a gente se mudar para a chácara.
Apesar de ter sido uma fase muito tensa e difícil com a doença do meu
pai, não tenho do que me queixar: enquanto era poupada, sempre que possível,
do clima de doença, brincava muito, inclusive com minha mãe e, às vezes, até
com meu pai. 
Ele pendurou uma tabela de basquete no quintal, no meio das árvores de
frutas, e eu passava horas treinando, sonhando em um dia ser uma
profissional. Com minha altura, seria mais um sonho do tipo impossível...
Para mim, todas as prostitutas de São Paulo estavam na Augusta. Eu já
havia passado por lá muitas vezes, inclusive com meus pais. "Olha lá aquelas
putas , alguém comentava. Como é que uma mulher chega nesse ponto?", eu
pensava. Para mim, só tinha putas ali, naquela rua suja, feia. Ou, então,
elas viviam naquelas casinhas velhas, caindo aos pedaços, com mulheres muito
maquiadas penduradas nas janelas, chamando os homens que passam pela rua. Lá
dentro, bastava elas abrirem as pernas e esperarem o cliente gozar: pronto. A
tal "vida fácil". Garota de programa seria assim, também? Não pelos anúncios
de jornal. "Você, menina de 18 a 25 anos, atenda a executivos ganhando no
mínimo mil reais por semana.
Nas semanas anteriores à minha fuga, quando já estava decidida a sair
de casa, comprei jornais para ver os classificados e cabulei aulas para
visitar muitos desses lugares: boates, privês, casas de massagem. Não vi nada
que se aproximasse daquela imagem bagaceira da Augusta, muito menos das
mulheres acabadas. A maioria dos lugares, como o Bahamas, era de bom gosto,
elegante mesmo. Por fora, você nem se toca do que é lá dentro. Casas que
encheram meus olhos. As garotas que vi por lá não tinham nada de anormal, não
tinham "puta" estampado na testa nem ficavam na porta se oferecendo a quem
passasse.
O privé da alameda Franca, nos Jardins, foi a minha escolha. Eu não
sabia fazer nada, nem tinha experiência ou segundo grau completo. Para sair
de casa, teria que pagar para ver - e ganhar os tais mil reais pelo que
fizesse. O preconceito foi embora e eu disse:
Vou ter que ser isso . E, confesso: fantasiei muito com a
possibilidade de ter vários homens e comecei
a gostar da idéia. Afinal, só tinha transado seis vezes, de modo bem
mecânico, e nunca tinha visto um filme pornô na minha vida. Ia ser a chance
de descobrir até onde o sexo podia me levar.
Isso: abre bem as pernas."
Está bom assim?
"Deixa o doutor examinar essa boceta, para ver se está tudo certinho."
Vem um dedo, depois outro, que ele tira e cheira. Hummm, você passou
no exame médico.
Após estrear com o "ginecologista", que dizia ter certeza de que a
garota não estava doente apenas cheirando seus dedos depois de enfiá-los
nela, a ilusão de "abrir as pernas e pronto" não resistiu. Nem a fantasia de
ter muitos homens diferentes, pois pensava na minha referência de homem. Mas
foi bom ter tido um "tratamento de choque" para ver se queria mesmo ter minha
independência.
Foi difícil estar na cama com uma pessoa estranha,:
mesmo que fosse o ajeitadinho metido a ginecologista. Imagine, então,
subir com um velho japonês de sessenta anos, gordo, imenso. Ele foi o meu
segundo. Nunca pensei na vida em pegar um cara assim. No entanto, ele me
pegou - e me pagou. 
Para dizer não, teria de pagar à casa o que o cliente pagaria pelo
programa. Esse era o acordo. Fiz minhas contas: para ganhar cem reais, tinha
de fazer três programas. Ser escolhida, e não escolher. Não é à toa que tanta
garota de programa cheira cocaína e puxa muita maconha. Senti isso na pele.
Cheirando e fumando.
O japa foi tirando a roupa, e eu só pensando em dinheiro. Tinha uma
hora pela frente com aquilo. Ele era mais velho que meu pai! Só pensava em
fazer ele gozar logo para acabar de uma vez com aquilo. Chegamos a conversar
um pouco. O pau não subia; eu chupava, esfregava, e nada. Veio um monte de
sensações, cheiros, coisas que eu não queria sentir. Fingia para mim mesma
não sentir. Ele passava a mão em mim. Não gostei.
Até hoje, às vezes, tenho nojo de ver uma mão fazendo carinho no meu
corpo. Faço neles, mas nem sempre curto receber. Só transo ouvindo música,
que me ajuda a divagar, a entrar em outra sintonia (além de o CD durar
exatamente o tempo do programa, o que me ajuda a controlar a hora
trabalhada). Há vezes em que imagino outro homem ali, um namorado. E olho
para o lado, só para não ver a mão passeando por mim, pela minha intimidade.
É uma questão de pele. Mas fui em frente e consegui fazer o japonês ficar de
pau duro. Não sabia o que era pior. 
Botei nele uma camisinha, fiquei por cima dele, cavalguei, ele me
comeu e, claro, não foi bom. Foi mais do que mecânico. Nesse dia, cheguei a
chorar com outro cliente.
Para todos que me comeram naquele dia, contei que era meu primeiro dia
como garota de programa.
Todo mundo sempre se dá algo para compensar um dia ruim, uma semana
difícil. Com garotas que vivem do sexo, não é diferente. "Eu mereço!",
pensei. Com o primeiro dinheiro de putaria que consegui ganhar e juntar, me
dei um celular de presente. Me senti recompensada, de alguma maneira, por
cada vez que engoli meu nojo para não perder o programa. É engraçado, mas
nunca senti nojo do cara antes de chegar na cama, qualquer que fosse sua
aparência. É só quando chega lá, mesmo. Não por algo que o cara tenha no
corpo, um defeito ou uma cicatriz (embora tenha minhas preferências...). O
que me pega é o cheiro. O cheiro do corpo. 
Tem homem que toma banho e não adianta. Tem os que chegam com bafo,
também. Esses são os piores. Por isso beijos são uma coisa delicada. Eu não
beijo todos. E nem todos querem beijar.
Os carentes são os que mais beijam. Só que, mesmo não estando a fim,
tenho de beijar. E vai do jeito que dá, meio sem vontade. Eu não tenho muita
escolha. Faz parte do meu negócio. Então respiro fundo e vamos lá.
Os pouco mais de três anos que vivemos na chácara chegavam ao fim. Meu
pai já estava bem melhor das seqüelas do acidente e eles decidiram que seria
importante para minha educação voltar para São Paulo. Afinal, eu iria para a
quinta série em 1995. Minha irmã mais velha já havia se mudado para Cajuru,
próximo a Ribeirão Preto, por causa de trabalho. A do meio estava morando em
nosso apartamento. 
Por isso, meus pais compraram um novo para nós, no mesmo bairro. Cada
um teria seu canto. Realmente moderno, levando em conta os conceitos morais
dos meus pais: uma morando no interior e a outra morando sozinha. Se fosse
verdade que os mais velhos amolecem as coisas para os mais jovens, não teria
com que me preocupar.
Com a mudança, tive de deixar para trás uma bóxer, Lunna, minha
preferida, o weimaraner Fedra e o Paco, um vira-lata. Porém, o mais
importante deixado lá foi um pedaço da minha infância, da minha felicidade.
Voltar para São Paulo, por mais que eu amasse a cidade, virou um tormento.
Meus pais tinham medo de assalto, de estupro, de tudo. E me prendiam. Para
quem foi criada solta, brincando na rua ou no quintal, era a morte ficar
presa naquele apartamento no Paraíso, 
já tinha 11 anos e queria fazer do mundo o meu quintal. Minhas amigas
começavam a ir ao shopping, às matinês dançantes, e eu não podia. Sem
liberdade, passei a mentir para ir onde queria.
Minha mãe tinha ciúmes de mim. E demonstrava isso. Nem namorar, mesmo
que fosse o carinha mais perfeito do mundo, eu podia. já meu pai... Ele nunca
fez seu papel de pai. Tudo bem, teve o acidente, a doença, ele deixou sua
carreira brilhante bem no topo, viveu uma depressão fodida. Hoje sei que,
muitas vezes, ser agressivo comigo era culpa de tanto remédio tarja preta que
ele tinha que tomar. Se antes eu o culpava, percebo agora que não foi bem
assim.
A tal fase de adolescente rebelde que o excesso de proteção
desencadeou ficou quase fora de controle, e as brigas, principalmente com meu
pai, viraram rotina. Quase sempre pensava em sair de casa ou ir atrás dos
meus pais biológicos para saber se eles me queriam de volta. Se a razão para
me abandonar fosse financeira, não haveria problemas. Eu trabalharia, me
bancaria. A única direção que poderia me ajudar na busca dos meus verdadeiros
pais estava em Sorocaba, onde nasci e fui adotada. Mas, na verdade, nunca fui
atrás.
Eu estudava no colégio Bandeirantes, tradicional e superpuxado - tanto
que, quando passei com muito sacrifício, mas sem recuperação, para a sexta
série, fiquei na última sala da turma, a 6s4. Quem estudou já sabe bem o que
essa pecha significa... Meus pais, no entanto, estavam orgulhosos de mim,
mesmo assim. Se por um lado eu queria liberdade, e mentia muito para
consegui-la, por outro ainda tinha meus próprios preconceitos e dúvidas. E
bancava a boa filha.
Minha irmã do meio, que hoje tem 30 anos, começou a namorar um rapaz
que meus pais não aprovavam. Ela já morava sozinha. Bem... Digamos que nem
sempre. Minha mãe descobriu esse pequeno detalhe. A pressão para que
terminasse o namoro foi grande e ela não teve dúvida: desapareceu com o cara.
Vi o sofrimento dos meus pais com essa situação. Eu não podia ficar
indiferente a isso. Quanta raiva senti da minha irmã. O quanto rezei para que
meus pais não sofressem tanto... Acho que foi a única vez na vida em que
rezei pedindo alguma coisa, e nem era para mim. Eu sempre agradeço pela
proteção e só. Acho que Deus não faz nada por nós, além de nos proteger.
Mas eu queria que Ele fizesse por meus pais. Mal sabia que eu mesma,
dividida entre a censura à minha irmã e o desejo de liberdade, apertaria o
botão de replay nessa história.
Quando o romance da minha irmã acabou, pelo visto por decisão do
rapaz, ela voltou para nossa casa deprimida, quase doente, falando em morte e tudo o mais. Meus pais não
passaram a mão na cabeça dela, dizendo "filhinha querida, nós te amamos
tanto". Deixaram claro que queriam que ela sentisse a dor dos seus próprios
erros. Eles a ignoravam, não conversavam com ela. E eu seguia o exemplo
deles, por mais que minha vontade fosse abraçá-la, dizer a ela que estava
tudo bem.
Lembro o dia em que vi minha mãe conversando seriamente com ela. Eu já
conhecia aquela expressão:
mamãe ficava vermelha, seus olhos secavam, ficavam sem brilho nenhum.
Sua fala era calma, mas num tom de voz estranho, que não deixava
dúvidas a respeito da seriedade de suas palavras. A testa franzia de maneira
diferente, exibindo rugas que só apareciam quando ela estava brava. Era pior
do que apanhar - por mais que nunca tivesse recebido um tapa sequer. No
final, claro, viram a seriedade da coisa e a apoiaram. E lá foi minha irmã
para o psiquiatra. Comigo foi a mesma coisa. Por que não falavam conosco? Por
que nossos problemas tinham de ser resolvidos com estranhos? Eu queria falar,
mas com eles. Não discordo do método que usaram, pois talvez não conhecessem
outro. Com meus filhos, no entanto, acho que farei diferente quando a hora
chegar.
Sempre imaginei que a primeira vez para uma menina tivesse mais peso
do que para um menino. Estava enganada. A cada cabaço que tiro, fico mais e
mais convencida disso. Tudo bem que, no futuro, eles nem se lembrem direito
com quem foi (difícil, no meu caso...), mas a sensação de estar frente a
frente com uma mulher, poder tocá-la, ter nas mãos, em vez de uma revista com
fotos de mulheres peladas, uma de carne e osso... Finalmente, descobrir a
consistência de um seio, aprender como pegá-lo, passear com a mão na gruta de
prazeres escondidos que toda mulher carrega entre as coxas. Poder cheirar,
lamber. Sinto alguns deles, nos seus 13, 14 anos, trêmulos diante da nudez.
Posso quase ler seus pensamentos. "Posso pegar?", é o que mais ouço deles,
querendo apalpar meus seios. Mãos geladas, geralmente. Sinto no ar o medo de
falhar . Ou da comparação com o pau de outros caras. Ou ainda de, quase morto
de ansiedade, gozar sem nem ao menos completar o que está fazendo ali.
Conduzo, ensino, realizo. Me sinto especial. De certo modo, estarei para
sempre na memória de cada um daqueles meninos - tão "crianças" quanto eu. E
foram muitos.
Como o colégio Dante Alighieri ficava perto da casa onde trabalhava,
já deu pra imaginar quantas virgindades "desapareceram" por lá... Os moleques
iam em turma.
Como não podia entrar menor de idade

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