quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Parte 7 - O Doce Veneno do Escorpião

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Estava trabalhando como garota de programa há quase um ano quando
pintou meu primeiro casal (de uma longa série) lá na Michigan. Quer dizer,
a primeira dupla. Ambos eram casados, sim - mas não um com o outro. 
Eles chegaram e eu, curiosa, fui medindo a mulher. Confesso que fiquei
muito excitada. Chupar outra garota enquanto o cara chupa você é uma sensação
indescritível. 
Nem preciso fazer força para gozar de verdade. Ela retribuiu a
gentileza e me chupou com gosto.
Enquanto ela ficava com a língua na minha boceta, eu engolia o pau
dele. Adorei ser o centro das atenções deles. Enquanto ele me comia, deitado,
ela se oferecia toda pra mim, lambia meus seios, me dava um banho de língua
com ele engatado em mim. Nos beijamos, nos esfregamos nos chupamos. Se não
fosse por mim, o coitado teria de ficar batendo punheta. Gozei umas duas
vezes.
Essa foi a primeira vez que transamos, e estranhei ela ter ficado
muito mais interessada em mim do que nele. Nada contra, mas não me pareceu
natural. Se eu não desse um pouco de atenção ao rapaz, seria como se ele não
estivesse lá. 
Saquei que ela tinha nojo dele, escapando a cada investida, a cada
toque, a cada tentativa de beijar, chupar. Enquanto ele tomava banho, nós
duas começamos a conversar. Eles eram amantes há algum tempo, mas o interesse
dela era pelo dinheiro dele, e não pelo prazer que o fato de serem amantes
poderia proporcionar. O marido dela não tinha condições de dar nem metade do
que o amante dava para ela. Carro do ano, jóias, enfim, presentes de amante
mesmo. 
Eles só podiam se encontrar uma vez por semana, durante duas horas. 
Para se livrar do fardo de fazer sexo com ele, ela passou a exigir
outra mulher na cama com eles. 
Inventou que gostava (mas parecia gostar, mesmo), só para fazer o
tempo correr mais rápido quando houvesse esses tais encontros. Não sei se ela
inventou isso para dar uma desculpa, embora fizesse sentido, pelo que vi. 
Essa mulher era uma exceção, com certeza. Depois que sair com casais
virou rotina, e me iniciou no interessante mundo dos clubes de swing,
consegui chegar a uma conclusão sobre a alma feminina: elas gostam de estar
com outra mulher. 
Esse papo de "realizar a fantasia do marido" é para a minoria. É a
desculpa útil. Mulher é mais tímida, reservada, tem medo dos tabus. É claro
que há casais em que se torna evidente o marido ter forçado a barra, obrigado
a mulher a sair com outra. Estas chegam com medo, travadas, não sabem o que
fazer. 
Foi meio constrangedora uma ocasião em que a mulher chegou a chorar na
minha frente pelo ciúmes de ver o marido comigo. Mas têm as outras, que até
incentivam. Essas juram que, se fizerem isso, os maridos não
terão necessidade de traí-las, pois estarão sempre juntos nas
aventuras sexuais. Se elas soubessem quantos deles voltaram sozinhos
depois... 
Sem falar nos que tinham vindo antes. Já ouvi muito "quando ela vier
aqui, você finge que nunca me viu na vida, hein?". Sinto pena delas. Estão
sendo enganadas e não sabem. Ou fingem não saber, não perceber, sei lá. Nunca
vou ter essa ilusão de ser liberal para evitar a traição. Não existe essa de
satisfação total nem garantia de nada. 
Engraçado, são tantas as razões de cada uma dessas mulheres para
chegar a dividir sua cama e seu marido com mais alguém: medo, prazer, ciúmes,
curiosidade, insegurança, fantasia. Mas, no fundo, acredito que toda mulher
goste mesmo de mulher. Se homem gosta de homem eu já não sei, pois quando
rola de estar com dois ao mesmo tempo, mesmo nas "festinhas" com direito a DP
e tudo, nunca vi nada entre eles (o que é uma pena). Se fazem quando estão
sozinhos, já é outro departamento... Já vivi a intimidade do sexo com muita
gente, homens e mulheres, e sei do que estou falando. Vou dar uma excelente
psicóloga, pode escrever.
A história do namorado motoboy, as mentiras que eu contava só para
conseguir o que eu queria, as aprontadas e minhas notas no colégio, tudo isso
só ajudou a azedar minha relação com meu pai. Ele ainda tentou dar um jeito:
levei bomba no primeiro colegial e, quando passei para o segundo, me mandou
para o São Luís para ver se um novo ambiente ajudaria. Não adiantou nada: eu
continuava sem o menor saco para estudar.
Eu e meu pai tínhamos brigas terríveis, mas ele nunca havia me batido,
por mais que eu temesse o contrário. No fundo, sempre achei que merecia. 
Por isso, vou revelar a verdadeira história de por que eu apanhei do
meu pai pela primeira vez. Nunca contei isso a ninguém por absoluta vergonha
mesmo. Eu roubava. 
Não, não sou ladra profissional. Começou quando eu tinha uns oito anos
e a gente morava em Araçoiaba. Lá, tinha uma quitanda com um baleiro sobre o
balcão. Como tinha só uma atendente, que estava ocupada com minha mãe, era
muito fácil pegar as balas escondido - e igualmente escondida eu as
saboreava. Sabia que bastava pedir que minha mãe compraria quantas eu
quisesse. Mas o barato era a adrenalina, o medo do proibido e o risco de ser
apanhada. Só uma vez eu me descuidei e minha mãe perguntou de onde vinham
aquelas balas. Menti: "Ganhei na escola". Passou pouco tempo até eu descobrir
outras facetas dessa vontade incontrolável: os doces não eram suficientes e
eu me descobri compulsiva por dinheiro. É isso mesmo: o dinheiro sempre me
dominou.  
Imagine: eu, com oito anos, pegando dinheiro dos meus pais! Como meu
pai quase não podia sair, por causa da doença, sempre havia dinheiro na casa.
Naquela época, nem era real ainda. Não tinha a menor idéia do valor do
dinheiro, mas já sabia que pedir (no que certamente seria atendida) era menos
excitante do que pegar. Comecei pegando algumas notas, de vez em quando,
daquele bolinho que ele sempre guardava. Então, ia até uma loja e perguntava
à vendedora o que dava para comprar. Mesmo assim, continuei pegando coisas em
outros lugares. Principalmente doces.
Tínhamos um motorista só para me levar e buscar na escola, que era em
Sorocaba, já que meu pai não podia me levar e minha mãe não gostava de
dirigir até lá. No caminho, sempre pedia para ele parar na Real, uma padaria
maravilhosa da cidade, inventando que minha mãe havia pedido para eu comprar
alguma coisa. Eu tinha o dinheiro na minha bolsinha e nem estava tanto assim
com vontade de comer doces ou chocolate. Fiz isso durante muito tempo, até
que um dia...
Não sei por que, minha mãe resolveu me levar à escola naquele dia. Ela
parou na tal padaria e me pediu para ir até lá comprar alguma coisa. Na
volta, veio com um papo muito estranho: tinha visto uma menina sendo levada
aos safanões pelo segurança da loja até o escritório. E ficou dizendo que a
garota havia sido apanhada pelas câmeras de segurança furtando coisas da
padaria. Eu nem sonhava que existisse isso nas lojas. Até hoje não sei se ela
sabia de alguma coisa (era bem provável, já que todo mundo ali conhecia minha
mãe e devem ter dado um toque) e escolheu esse caminho para me dar um susto,
ou se a história era mesmo verdadeira. Só sei que parei de pegar fora de
casa. Só fora de casa. Lá dentro, era sempre em cash.
Todos os dias, quando a gente já havia voltado para São Paulo, eu
pegava ao menos cinqüenta reais. O que valia era a sensação do proibido, até
porque eu ganhava mesada deles e, se precisasse de mais, bastava pedir. Eu
fiquei tão fissurada nesse negócio que não deixava passar um dia sequer sem
pegar dinheiro. Minha mãe me flagrou duas vezes, e o seu perdão (pedido aos
prantos, com lágrimas e vergonha verdadeiras) parecia um green card para eu
continuar fazendo. 
Ela até chegava a comentar com meu pai, na minha frente, que estava
sumindo dinheiro da carteira dela - acho que na esperança de que eu me
tocasse e parasse com aquilo. 
Doce ilusão...
Comecei a pegar no colégio, também. Eram só dez reais aqui e acolá,
nada grandioso. Ninguém levava mais do que isso para a aula. Eu esperava o
pessoal sair para o recreio, voltava para a sala e vasculhava as bolsas. Até
o dia em que uma menina da classe deixou trinta reais em cima da carteira e eu nem pisquei: fui lá e
peguei na caradura. Deu diretoria... Alguém me viu voltando para a sala no
intervalo e dedurou.
Quando a diretora perguntou, não procurei mentir e assumi: "Fui eu
mesma". Ela me perguntou se eu estava usando drogas. Seria bobagem admitir
isso, já que eu não gastava tudo o que pegava com erva. Resolvi mentir. O
castigo seria devolver o dinheiro. Adivinha o que eu fiz? Peguei em casa.
Caso encerrado, pero no mucho. Imagina se não continuou sumindo dinheiro no
colégio... Mas, das outras vezes, só paguei a fama sem deitar na cama. 
Eu realmente achei que, devolvendo a grana, ficaria tudo bem. No
entanto a diretora resolveu chamar minha mãe e contar tudo. Ela ficou
arrasada, muito brava comigo, brigamos e tudo. Mas, àquela altura do
campeonato, por mais que eu quisesse parar (e eu queria), não conseguia.
Tinha de pegar cada vez mais. Tudo para alimentar outro vício: a
compulsão por compras. Eu só comprava futilidades, mas tinha uma necessidade
maluca de comprar. E isso demandava cada vez mais dinheiro.
A coisa estava tão fora de controle que até os dólares que minha irmã
guardou (sobras da viagem aos Estados Unidos para conhecer meu cunhado)
entraram na dança.
Antes de voltar para o exterior para casar, ela resolveu fazer uma
obra no apartamento dela e, com medo dos pedreiros, levou o dinheiro lá para
casa. Eu pegava uma ou outra nota de dólar e, quando vi, tinha roubado todas.
E a coisa não parava. Comecei a vender meus livros em sebos, até acabar com
todos.
Comecei a levar outros de casa. Chega! Prometi a mim mesma que não
faria mais isso. Quando prometo algo, eu cumpro. Dessa vez, não deu.
Um dia, quando ninguém estava em casa, comecei a xeretar as gavetas
atrás de algum dinheiro. Encontrei um gravador e um monte daquelas fitínhas
cassetes. Comecei a ouvir e descobri que minhas conversas ao telefone haviam
sido todas gravadas. Tudo bem que eu havia feito um monte de cagadas, mas
aquilo era invasão demais. 
No começo de 2002, pensei: "Se eu pegar bastante dinheiro e comprar
tudo o que quiser, depois eu paro". Me lembrei de um conjunto de jóias da
Vívara que meu pai havia dado a minha mãe como presente de aniversário de
casamento no ano anterior e que ela nunca havia usado. Tentei vender só o
anel, mas ninguém me dava mais do que cinqüenta reais por ele, por mais que
sua pedra fosse rara. Desisti temporariamente da idéia, até que, num
rompante, resolvi pegar o estojo com todo o conjunto. 
Soube de um lugar na Oscar Freire que comprava jóias e pagava bem. 
Então, levei tudo na mochila para o colégio. Eu havia até me esquecido
de que estava lá quando uma amiga me pediu alguma coisa e eu falei que ela
podia
pegar na bolsa. Foi um auê: parou a aula e até a professora veio ver o
que estava acontecendo, tamanho o escândalo que a menina fez. A professora
perguntou por que eu estava carregando aquilo, e eu, mais uma vez, menti: era
um presente do namorado que eu ia emprestar a uma amiga para ir a uma festa. 
No fim da aula, lá fui eu à tal loja da Oscar Freire. O cara
reconheceu o valor das jóias, mas disse que só podia pagar quinhentos reais.
Disse não, é lógico. Voltei para casa com o estojo, guardei novamente no
armário, embora a perspectiva de ter quinhentos reais fosse muito tentadora.
Era muito dinheiro para uma garota de 17 anos. Pensava nas coisas que poderia
comprar com essa grana e não resisti. Minha mãe, que nunca havia usado
aquelas jóias, nem ia dar pela falta delas. No dia seguinte,fechei o negócio.
Tomei um táxi e, na mesma hora, me arrependi. Pedi ao motorista que desse a
volta no quarteirão e voltei à loja. Adivinha quanto ele queria para eu
comprar tudo de volta? Dois mil e quinhentos reais!!! De onde eu tiraria essa
grana toda? Deixei para lá. O que estava feito, estava feito.
Em maio, minha mãe resolveu colocar as tais jóias para irmos a um
casamento. Evidente: ela não as achou. Chegou a perguntar para mim se eu
havia visto - e eu menti, claro. Ela revirou a casa inteira atrás das
benditas jóias e acabou colocando outras.
Foi um alívio - mesmo que temporário. No dia seguinte, um sábado, ela
colocou a casa de pernas para o ar. Juro que tive vontade de chegar nela e
contar tudo, mas não soube como. "Foi a empregada!", concluiu minha mãe. Eu
fiquei morrendo de culpa, pois a empregada trabalhava com a família há quase
vinte anos e não achei justo que ela levasse a culpa. Mas continuei no
silêncio. 
Na semana seguinte, minha mãe chegou em casa dizendo que viera do
colégio e que a diretora contara a ela que eu andava com atitudes estranhas;
dando presentes a minhas amigas (estava me desfazendo das minhas coleções de
adesivos e papéis de cartas, só isso). Como prato principal, a revelação: 
a história da jóia vista na sala de aula chegou aos seus ouvidos. "Se
foi você, quero as jóias de volta", disse ela, imaginando que ainda
estivessem comigo. Não teve jeito e eu confessei tudo, inclusive a venda. Ela
quis saber por quanto eu havia vendido, porém isso não revelei. Cena de
horror, embora minha mãe garantisse que não contaria nada ao meu pai, com
medo da reação dele, de ele ter algum troço, já que ainda deveria estar
pagando as prestações do presente, ou até mesmo de ele me bater. 
Passou pouco tempo até que cheguei em casa e vi minha mãe com aquela
expressão terrível que só ela sabe fazer quando está brava. Ela disse apenas: 
"Não agüentei e contei tudo para o seu pai". 
Nisso, eu o vi vindo da sala na minha direção. Sem dizer nada, começou
a me bater, bater, bater. De mão fechada, aberta, de tudo quanto é jeito. Não
sei como, começaram a chegar pessoas lá em casa: 
minhas irmãs, os amigos delas, meu cunhado. Virou platéia. Meu pai me
arrastou até o sofá e continuou batendo. Quando ele cansava, eu pedia para
ele bater mais. 
Já que não tinha conseguido me matar, aquela era a chance: "Me mata de
uma vez. Eu deixo você me matar"; ele dizia: "Eu vou te matar, mesmo, de
pancada". 
Resolvi enfrentar. Não derramei uma lágrima sequer. Queria me mostrar
forte, por mais machucada que tivesse. Meu pai falou que já havia falado com
alguns juízes amigos dele e que eu ia direto para a Febem. Apanhei até a hora
que meus pais saíram para dar queixa de mim. Fiquei sendo vigiada pelas
minhas irmãs, que, claro, me censuraram. Me "lembraram" de que eu havia sido
adotada por amor, que eu tinha tudo o que elas nunca tiveram, pois nem sempre
meus pais tiveram grana. Mas eu enfrentava todo mundo, nem sei por quê. Na
volta, meu pai continuou a me bater, até cansar. Fui para o meu quarto e
deitei com a roupa que estava, sem nem tomar banho. Ele entrou no quarto, me
deu um tapa no rosto e disse: "Toma mais um". Foram três dias assim, até que
ele parou de me bater. Nunca mais fiquei sozinha. Sempre tinha alguém me
vigiando, em casa, na rua, no caminho para a escola.
À noite, eles trancavam as duas saídas do apartamento e iam dormir. 
Durante o dia, trancavam as portas do escritório e do quarto deles,
com medo que eu roubasse mais alguma coisa. 
Uma semana depois, meu pai chegou para mim e disse: "Hoje é sua
audiência". Bem, se ele não me matou, melhor mesmo seria ir para a Febem. Ele
e minha mãe foram de táxi. Eu ganhei um bilhete de metrô e algumas
orientações de como chegar até lá. No meio do caminho, pensei em fugir, mas
tive medo e resolvi enfrentar o juiz. Quando cheguei lá, ficamos em uma sala
onde estavam muitas mães de garotos presos, pois era dia de audiência para
ver quem seria solto. Na hora que entrou aquela fila de meninos de mãos
dadas, obrigados a olhar para o chão sem virar o rosto, muitas delas
começaram a chorar vendo os filhos. "Vai escolhendo aí quem vai ser seu
namorado na Febem", disse meu pai. Nem sei, mas acho que meninos e meninas
ficam separados lá dentro. Ele disse isso mais para me machucar. Ainda mais.
Minha mãe só chorava; não dizia nada.
Fomos chamados para a sala da juíza (ainda bem que era mulher). Eu
estava com o coração na mão. Primeiro falou meu pai. Depois, minha mãe, que
confirmou minha rebeldia e os problemas que eu estava causando, que eles não
sabiam mais o que fazer comigo e que estavam decepcionados. Na minha vez,
menti dizendo que tudo isso era por
causa da maconha. Alguma coisa até era, porém não tudo. Disse que
estava arrependida, embora para mim fosse indiferente ir para a Febem ou
voltar para casa.

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