quarta-feira, 24 de junho de 2015

Sábado, 20 de Junho de 1942 (2)

Deixe um comentário

Sábado, 20 de junho de 1942

Querida Kitty

Vou principiar já. Tudo está tranqüilo neste momento. Mamãe e papai saíram, e Margot foi jogar pingue-pongue com alguns amigos.

Eu também tenho jogado um bocado de pingue-pongue, ultimamente. Nós, jogadores de pingue-pongue, adoramos sorvete, principalmente no verão, quando sentimos mais calor por causa do jogo. Assim, quase sempre, ao final do jogo, vamos todos para a sorveteria mais próxima — a Delphi ou a Oásis —, onde são permitidos judeus. A Oásis geralmente está cheia, e em nosso grande círculo de amigos sempre há algum cavalheiro generoso ou namorado que nos oferece uma quantidade de sorvete muito maior do que a que conseguiríamos devorar em uma semana.

Você deve estar admirada por eu estar falando de namorados, na minha idade. Mas, o que é que eu posso fazer? Ninguém pode evitar isso na minha escola. Sempre que um menino pede para vir comigo para casa, de bicicleta, e começamos a conversar, uma em cada dez vezes é certo que ele se vai apaixonar loucamente e não vai mais me perder de vista. É claro que depois de algum tempo isso esfria, ainda mais que não dou muita bola para seus olhares ardentes, e vou em frente, pedalando despreocupadamente.

Se as coisas vão longe demais e eles falam em ir lá em casa "falar com papai", dou uma guinada na bicicleta, deixo minha mala cair, e quando o garoto estaca, para apanhá-la, já tratei de mudar de assunto.

Esses são os tipos mais inocentes; há outros que atiram beijos ou tentam segurar-nos pelo braço; nesse caso, estão definitivamente batendo na porta errada. Salto da bicicleta e recuso-me a seguir em sua companhia, e, fingindo-me insultada, digo-lhes claramente que não me interessam.

Pronto, os alicerces de nossa amizade estão lançados. Até amanhã.

Sua Anne.

0 comentários:

Postar um comentário