segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Segunda-feira, 21 de setembro de 1942

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Querida Kitty

Hoje vou dar o noticiário completo.

A sra. Van Daan é insuportável. Vive às turras comigo por causa de minha tagarelice.
Além do mais, está sempre nos atormentando por um motivo ou outro. Esta é a última: não lava as panelas se nelas encontrar o menor resto de comida; em vez de guardá-los em um prato de vidro, como sempre fizemos, deixa-os na própria panela para que se estraguem.

Na refeição seguinte, Margot fica às vezes com seis ou sete panelas para lavar, e aí a madame diz: — Ora veja, Margot, você tem um bocado de serviço pela frente!

Tenho estado ocupada com papai, organizando nossa árvore genealógica. Conforme vamos avançando, ele conta coisas sobre os nossos parentes — interessantíssimo! Uma
semana sim, outra não, o sr. Koophuis me traz alguns livros. Estou entusiasmada com a série de Joop ter Heul. Gostei demais de todos os livros de Cissy van Marxveldt. Quanto a Midsummer madness, já o li quatro vezes e ainda dou boas risadas com algumas das situações cômicas que surgem.

O ano letivo já começou. Estou me dedicando seriamente ao francês e estou conseguindo meter na cabeça até cinco verbos irregulares por dia. Acabam de chegar alguns livros escolares, e temos um bom estoque de cadernos, lápis, borrachas e etiquetas que eu trouxe comigo. Às vezes ouço notícias holandesas transmitidas de Londres; recentemente ouvi o príncipe Bernardo falar. Ele disse que a princesa Juliana espera um bebê para janeiro. Achei lindo. Todos ficaram admirados com meu entusiasmo pela família real.

Andaram falando a meu respeito e chegaram à conclusão de que não sou completamente burra, o que me obrigou a estudar dobrado no dia seguinte. É claro que, com catorze ou quinze anos, não vou querer permanecer no primeiro ano secundário da escola. Esteve em pauta, também, o fato de eu não poder ler muitos livros que valham a pena. Mamãe está lendo Heeren Vrouwen en Knetchen , ao qual não tenho acesso (Margot, sim). Dizem que antes preciso amadurecer um pouco, como minha talentosa irmã. Falou-se, então, de minha ignorância em filosofia e psicologia, matérias sobre as quais não sei absolutamente nada.
Talvez para o ano que vem eu já esteja mais sabida. (Encontrei rapidamente essas palavras difíceis no Koenen².)

Acabo de descobrir, um tanto perturbada, que tenho apenas um vestido de mangas compridas e três casaquinhos de lã, para o inverno. Já tive permissão de papai para tricotar um suéter de lã de carneiro, branca; a lã não é das melhores, mas contanto que esquente, isso é o que importa. Temos algumas roupas em casas de amigos, mas, infelizmente, só as veremos depois de terminada a guerra, se é que elas ainda estarão lá, por esse tempo. Eu tinha acabado de escrever algo sobre a sra. Van Daan, quando ela entrou. Pá! Fechei o caderno.

— Olá, Anne, posso ver seu diário?

— Sinto muito...

— Só a última página...

— Não, desculpe, mas não pode.

Naturalmente levei um susto danado, porque exatamente nessa página havia uma descrição nada lisonjeira dela.

Sua Anne.

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