quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Quinta-feira, 19 de novembro de 1942

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Querida Kitty

Dussel é um homem bom, tal como havíamos imaginado. Achou muito natural compartilhar meu pequeno quarto. Francamente, não gosto muito que um estranho use minhas
coisas, mas devemos estar preparados para fazer sacrifícios por uma boa causa; portanto, procurarei dar minha contribuição com a maior boa vontade. — Se pudermos salvar alguém, tudo o mais é de importância secundária — diz papai, e acho que tem toda a razão. Logo no primeiro dia em que chegou, Dussel fez-me uma série de perguntas: Qual o dia de a faxineira vir? Quando se pode usar o banheiro? Quando é permitido usar a privada? Você pode achar graça, mas essas coisas não são tão simples assim num esconderijo. Durante o dia não podemos fazer qualquer ruído que possa ser ouvido lá embaixo. Se houver algum estranho, então — como a faxineira, por exemplo —, os cuidados precisam ser redobrados. Expliquei tudo isso, detalhadamente, a Dussel, mas fiquei meio decepcionada: ele parece não ter compreensão rápida das coisas. Pergunta tudo duas vezes e ainda assim parece não se lembrar. Pode ser que melhore com o tempo e talvez esteja confuso com a mudança repentina.

Fora isso, tudo corre bem. Dussel trouxe notícias lá de fora, daquele mundo que abandonamos há tanto tempo. As notícias são tristes. Não se contam os amigos e conhecidos que se foram, para um destino horrível. Noite após noite, os caminhões verdes e cinzentos do exército percorrem as ruas, roncando. Os alemães tocam as campainhas de todas as portas, perguntando se há judeus morando nas casas. Se há, toda a família tem que sair imediatamente.
Em caso negativo, passam para a casa seguinte. Ninguém tem chance de escapar deles, a não ser que se esconda. Muitas vezes trazem listas e só batem onde sabem que vão encontrar presa certa. Em certas ocasiões, deixam-nos ir por dinheiro; cobram caro por cabeça. Isso faz lembrar as caçadas aos escravos, antigamente. Mas está longe de ser uma brincadeira; é trágico demais para isso. De noite, no escuro, vejo fileiras de gente boa, inocente, acompanhada de crianças que choram, caminhando, caminhando sob as ordens de dois desses camaradas valentões, maltratados até quase cair. Ninguém é poupado — velhos, crianças, mulheres grávidas, doentes —, todos têm que participar da marcha para a morte.

Que afortunados somos, tão bem-cuidados e sossegados. Não teríamos que nos preocupar com todas essas misérias, não fosse a angústia que sentimos por todas as pessoas
queridas a quem não mais podemos ajudar.

Sinto remorsos por estar dormindo em uma cama quentinha enquanto tantos amigos queridos são assassinados ou tombam numa sarjeta no frio da noite. Fico apavorada ao pensar nos amigos queridos que caíram nas mãos dos brutos mais cruéis que já surgiram na face da terra. E tudo isso, só porque são judeus!

Sua Anne.

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