quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Sexta-feira, 28 de novembro de 1942

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Querida Kitty

Consumimos eletricidade demais, ultrapassamos nossa cota. Resultado: a mais rigorosa economia e a perspectiva de um corte de luz. Quinze dias sem luz! Um pensamento agradável! Mas, quem sabe? Talvez nada aconteça. Já está escuro demais para se ler depois das quatro ou quatro e meia da tarde. Passamos o tempo da maneira mais doida: adivinhações, ginástica no escuro, conversas em inglês ou francês, criticando livros. Mas no fim tudo chateia. Ontem descobri um novo divertimento: espiar os quartos iluminados das casas que ficam nos fundos da nossa, por meio de um poderoso binóculo. Durante o dia não pode aparecer a mínima fresta entre as cortinas, mas à noite não há perigo. Nunca imaginei que vizinhos pudessem ser gente tão interessante. Pelos menos os nossos são. Descobri um casal fazendo uma refeição, uma família passando um filme e um dentista tratando dos dentes de uma velha visivelmente apavorada. Sempre soubemos que o sr. Dussel sabia lidar maravilhosamente com crianças e
que gostava muito delas. Pois agora ele se mostrou como realmente é: um sujeito maçante e antiquado, que adora ficar pregando longos sermões sobre boas maneiras.

Como tenho o especial privilégio (?) de compartilhar com ele meu quarto — infelizmente tão pequeno — e como sou eu que gozo da fama de ser a mais malcomportada dos
três, tenho que aturar um bocado de coisas e fingir-me de surda para escapar às velhas indiretas e advertências. Tudo isso não seria tão mau se ele não fosse um fofoqueiro de primeira e não escolhesse mamãe — logo ela — para fazer as suas fofocas. Mal acabo de tomar a dose dele e lá vem mamãe. Um diz mata e outro, esfola. Depois, se é mesmo o meu dia de sorte, sou chamada a prestar contas à sra. Van Daan, e aí, sim, é que começa o verdadeiro furacão!

Olhe, não pense que é fácil ser o protótipo da malcriada em uma família de espírito hipercrítico, obrigada a permanecer num esconderijo. À noite, na cama, fico pensando nos muitos pecados e deficiências a mim atribuídos. Sinto-me confusa e, dependendo da disposição do momento, acabo chorando ou rindo.

Adormeço, então, com o propósito de querer ser diferente do que sou e do que desejo ser; talvez comportar-me de modo diferente do que quero comportar-me ou de como me comporto. Oh, meu Deus, lá estou eu tentando envolvê-la na minha confusão! Desculpe-me, mas não gosto de riscar frases escritas, e nestes dias de crise geral não nos permitem desperdiçar o menor pedaço de papel. Aconselho-a, portanto, a não ler novamente a última sentença e muito menos tentar compreendê-la. Mesmo porque, não o conseguiria!

Sua Anne.

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