quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Terça-feira, 22 de dezembro de 1942

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Querida Kitty

O Anexo Secreto acolheu com grande alegria a notícia de que cada pessoa receberia, extra, no Natal, cento e vinte e cinco gramas de manteiga. O jornal dizia duzentos e cinqüenta gramas, mas isso apenas para os felizes mortais possuidores de cartões de racionamento fornecidos pelo governo, e não para judeus escondidos, que só podem comprar quatro cartões ilegais em vez de oito.

Todos nós vamos fazer alguma extravagância com a manteiga que nos coube. Eu fiz alguns biscoitos e dois bolos, hoje de manhã. Todo mundo está atarefadíssimo, lá em cima, e mamãe achou melhor que eu não subisse, até que os serviços domésticos estivessem terminados.

A sra. Van Daan está de cama, com a costela machucada, e reclama o tempo todo. Pede que lhe troquem constantemente as ataduras, e nunca está satisfeita com coisa alguma. Vou ficar contente de a ver curada e cuidando de seus próprios afazeres, porque uma coisa é preciso que se diga em seu favor: é uma mulher excepcionalmente trabalhadeira e amiga da ordem, quando está bem de saúde e em paz com os outros. É também muito alegre.

Agora, como se eu já não ouvisse bastante "psiu" de dia, meu companheiro de quarto deu para fazer-me "psiu" durante a noite também. Por ele, eu não poderia nem virar-me na cama! Recuso-me a tomar o menor conhecimento e da próxima vez vou devolver-lhe o "psiu".

Aos domingos, principalmente, fico uma fera quando ele acende a luz bem cedinho para fazer ginástica. Para mim, parece que aquilo dura horas, enquanto eu, pobre criatura, fico sentindo as cadeiras, postas à minha cabeceira para aumentar a cama, escorregar de um lado para outro sob minha cabeça tonta de sono. Quando termina os exercícios com um amplo movimento de braços para relaxar os músculos, "Sua Excelência" começa sua toalete. As calças estão ali mesmo, penduradas diante de seu nariz, mas ele acha conveniente andar de um lado para outro para apanhá-las. Depois, esquece a gravata que está sobre a mesa e volta aos encontrões, esbarrando nas cadeiras para pegá-la.

Mas não quero aborrecê-la mais falando de velhotes. Não melhora em nada as coisas, e os meus planos de vingança (tais como desatarraxar a lâmpada, trancar a porta, esconder a roupa dele) têm de ser abandonados no interesse da paz comum. Puxa, estou ficando tão sensata! Aqui tenho de usar o raciocínio para tudo: para aprender a obedecer, a calar a boca, a ajudar os outros, a ceder e não sei mais quanta coisa. Estou com medo de fundir a cuca cedo demais, ainda mais que não devo ter muito a fundir. Não vai sobrar nada para quando acabar a guerra.

Sua Anne.

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